Ataques agravam situação de países emergentes

A ofensiva militar norte-americana contra o Afeganistão vai agravar ainda mais a já frágil situação econômica dos mercados emergentes, na opinião de analistas de Wall Street. E a Argentina poderá ser a primeira vítima do novo conflito. "O ataque militar dos Estados Unidos pioram muito as perspectivas para a América Latina", disse à Agência Estado o estrategista-sênior para mercados emergentes do banco BNP Paribas, Ricardo Amorim. Como outros mercados emergentes, os países latino-americanos deverão sofrer com a eventual retração de investimentos privados e também do socorro financeiro oficial por parte de instituições multilaterais e de países industrializados. "Os ataques militares contra o Afeganistão e a possibilidade de uma reação através de novos ataques terroristas nos Estados Unidos mudam as prioridades do governo norte-americano e de organismos internacionais. A Argentina, que estava sofrendo com as pressões para uma reestruturação da dívida e para mudanças da equipe econômica, perde a prioridade para as questões no Oriente Médio e a guerra contra o terrorismo", explicou Amorim. Isso significa que ficará mais difícil uma nova ajuda oficial que os argentinos tanto necessitam para fazer frente às recentes turbulências políticas e econômicas. "Aumentam as chances de ocorrer problemas mais sérios na Argentina", disse Amorim. Na opinião da estrategista de renda fixa para América Latina do banco Santander, Lenora Suki, a ofensiva militar norte-americana irá exacerbar a tendência de aversão ao risco dos investidores internacionais - que desde os ataques terroristas do dia 11 de setembro passaram a evitar ativos de risco, como ações e títulos de mercados emergentes, buscando refúgios em aplicações consideradas "seguras", como os títulos do Tesouro norte-americano. "A Argentina e o Brasil vão sofrer as maiores pressões desse movimento (fuga dos investidores para mercados considerados como porto seguro)", afirmou Suki. Essa aversão ao risco irá agravar mais ainda a queda no fluxo de capital estrangeiro para os países emergentes. O volume de investimento direto de estrangeiros para o Brasil deverá cair para cerca de US$ 19 bilhões neste ano, segundo estimativa do Banco Central, ante os mais de US$ 30 bilhões registrados no ano passado. O mercado de capitais internacional fechou-se para a Argentina desde o início deste ano. Para Suki, outros mercados emergentes deverão sofrer também com o sentimento de incerteza que atingirá os investidores daqui para frente, tornando captações no exterior mais difíceis. Desde os ataques terroristas do dia 11 de setembro os investidores internacionais passaram a se desfazer em maior volume das posições em títulos e ações de vários países latino-americanos. Na semana passada, essa pressão acabou sendo agravada pelo nervosismo em relação ao fraco desempenho da arrecadação tributária da Argentina e dos rumores da saída do ministro Domingo Cavallo do governo. O risco da Argentina, medido pelo índice calculado pelo banco JP Morgan, beirou os 1.900 pontos, nível só observado durante a crise cambial mexicana, em 1995. A equipe econômica argentina já estava em negociação com os credores internacionais para uma operação voluntária de troca da sua dívida, como havia recomendado o Fundo Monetário Internacional (FMI). O fundo acenou com a liberação de US$ 3 bilhões, dentro do pacote de US$ 8 bilhões, que teve como objetivo dar uma sobrevida para que os argentinos pudessem implementar a lei de déficit fiscal zero e tentar reativar a economia. Os analistas temem que, com o ataque militar dos Estados Unidos e a possível retaliação do Taleban, a Argentina tenha perdido a sua última chance. "Se o Osama bin Laden conseguir uma união dos países árabes contra os Estados Unidos e isso significar mais retaliação em termos de terrorismo a reação dos investidores será bastante negativa", disse Amorim, do BNP Paribas. Leia o especial

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