Ataques ameaçam trégua frágil no Cáucaso

Ataques ameaçam trégua frágil no Cáucaso

Cessar-fogo acertado no sábado não foi suficiente para acabar com bombardeios

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2020 | 04h00

O cessar-fogo negociado por mais de dez horas em Moscou, na sexta-feira, ajudou a diminuir a luta feroz entre armênios e azerbaijanos no enclave de Nagorno-Karabakh, mas combates na sequência colocam sob ameaça a frágil trégua. Desde a ofensiva do Azerbaijão, em 27 de setembro, os confrontos que envolvem bombardeio de artilharia, ataques de drones e guerra de trincheiras já deixaram mais de 400 mortos. 

Cada lado acusou o outro de fazer novos ataques apenas 12 horas depois de a trégua entrar em vigor, ao meio-dia de sábado (hora local). Do lado armênio, houve relatos de bombardeios na capital do enclave, Stepanakert. Ao mesmo tempo, o Ministério da Defesa do Azerbaijão disse que a cidade azerbaijana de Terter, perto da fronteira, havia sido atacada. 

O enclave faz parte do Azerbaijão, segundo a lei internacional, mas tem sido controlado por um governo separatista alinhado com a Armênia desde uma guerra pelo território no início dos anos 90. Cerca de 30 mil pessoas morreram e aproximadamente 1 milhão – a maioria de azerbaijanos – foi deslocado pela guerra. O Azerbaijão diz que agora está lutando para recuperar terras que legitimamente pertencem ao país, enquanto a Armênia afirma que ceder as terras ao Azerbaijão pode causar a destruição da população armênia em Nagorno-Karabakh. 

Nenhum dos lados parece aberto a concessões e a retórica de todas as partes tem ficado mais dura nos últimos meses. Questionado sobre por que o Azerbaijão deu início à incursão, no mês passado, o porta-voz do governo e conselheiro para relações internacionais do presidente do Azerbaijão (Ilham Aliev), Hikmet Hajiyev, afirmou ao Estadão que a presença das tropas armênias nos territórios ocupados do Azerbaijão são uma ameaça à paz e à segurança da região. “As tropas armênias, sua presença física e seus ataques a civis do Azerbaijão, é claro, instigaram a escalada da situação.”

O embaixador da Armênia recém-chegado ao Brasil, Arman Akopian, afirma que não existe solução militar e a guerra em curso é a melhor prova disso, uma vez que, mesmo com o apoio da Turquia, o Azerbaijão “não foi capaz de mudar a configuração básica da Linha de Contato” – referindo-se à área militarizada que separa as forças dos dois países. 

“A situação dos civis está muito difícil porque são o principal alvo dos ataques do Azerbaijão. Como o Azerbaijão não conseguiu avançar profundamente no território controlado pelas forças étnicas armênias, está tentando ganhar vantagem atacando as cidades de Nagorno-Karabakh”, disse o embaixador ao Estadão.

“Esse é um momento crítico, mas já era esperado, pois o lado armênio tem feito de tudo para agravar a situação. Há mais de 30 anos, eles tentam piorar as coisas no terreno”, respondeu o porta-voz do Azerbaijão. 

O envolvimento mais direto da Turquia, segundo o embaixador armênio, é o que diferencia esse conflito – um dos mais violentos dos últimos anos – dos anteriores.  O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou que a única solução para o conflito passa pela retirada total das forças armênias de Karabakh e dos territórios ocupados do Azerbaijão. Segundo o embaixador armênio, como um dos membros permanentes do Grupo de Minsk – criado para a resolução do conflito –, Ancara deveria ficar de fora do conflito. 

A Turquia, um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e principal aliado do Azerbaijão na região, desafia a primazia geopolítica de longa data da Rússia no sul do Cáucaso. 

Moscou tem um tratado de defesa mútua com a Armênia e mantém uma base militar no país, mas também tem laços estreitos com o Azerbaijão. O Irã, vizinho ao sul da região, também é um ator importante, e o presidente Hassan Rohani ligou para o líder russo, Vladimir Putin, para discutir o conflito, segundo o Kremlin. 

“Apelamos ao Azerbaijão que acabe com essa guerra sem sentido e volte à mesa de negociações, que é o único lugar onde os conflitos podem ser resolvidos no século 21”, argumentou o embaixador da Armênia, que serve em Brasília desde julho. 

O conselheiro do presidente azerbaijano alega que houve uma tentativa frustrada de o Azerbaijão estabelecer canais com a nova liderança na Armênia. Em 2018, uma série de manifestações pacíficas, que ficaram conhecidas como Revolução de Veludo, pôs fim ao governo do ex-presidente Serzh Sargsyan (2008-2018). “Mas eles tentaram por todos os meios minar o processo de negociação”, alega o porta-voz. /COM NYT 

 

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