Mahmud Hams/AFP
Mahmud Hams/AFP

'Ataques calibrados' do Hamas na fronteira testam novo governo de Israel

Quase um mês depois de um cessar-fogo encerrar 11 dias de intensos combates na Faixa de Gaza, os militantes palestinos seguem enviando balões incendiários contra território israelense

Steve Hendrix, The Washington Post , O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2021 | 05h00

Como muitos israelenses, Ohad Zwick estava de olho no céu de Gaza e se perguntou como o novo governo de Israel lidaria com seu primeiro confronto com o Hamas, o grupo militante que governa o enclave. Ainda no segundo dia do mandato do primeiro-ministro Naftali Bennett, na terça-feira, dia 15, os nacionalistas judeus marcharam por Jerusalém Oriental, gritando “morte aos árabes”. Quase um mês depois de um cessar-fogo encerrar 11 dias de intensos combates, nenhum dos lados quer um retorno à guerra aérea total, mas a situação continua volátil

Como resposta à marcha, o Hamas lançou balões incendiários de Gaza, não ferindo ninguém, mas queimando plantações e áreas de mata. Fáceis de produzir, os balões de gás hélio são soltos amarrados a explosivos ou aparatos em chamas. Horas depois, aviões de guerra israelenses atingiram dois “locais militares” em Gaza, também não ferindo ninguém, mas irritando os moradores.

Essa foi uma versão da dança calibrada de provocação e represália bem conhecida dos moradores de ambos os lados da fronteira Gaza-Israel. “Nós rimos disso, para ser honesto”, disse Zwick, que mora com sua mulher e três filhos a apenas alguns quilômetros da Cidade de Gaza, no município portuário de Ashdod, uma das comunidades no sul de Israel. “Eles atingem algumas dunas de areia, matam algumas formigas e nada muda”, afirmou.

O Hamas lançou mais balões de fogo quinta e sexta-feira, e Israel atingiu outros locais em Gaza, novamente sem relatos de feridos. Até agora, porém, o Hamas não retomou os disparos de foguetes, o que garantiria uma resposta mais vigorosa dos militares israelenses.

Ambos os lados estão pressionando suas demandas nas negociações sobre uma trégua de longo prazo negociada por mediadores egípcios. As raízes do atual confronto em Gaza estão numa série de incidentes ocorridos no entorno da mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, entre abril e maio. A combinação de operações policiais, ordem de despejo em um bairro palestino de Jerusalém Oriental e uma marcha da extrema direita israelense rumo ao Monte do Templo levou à violência na Cidade Santa em 10 de maio.

No mesmo dia, o Hamas decidiu disparar foguetes contra Israel. Ao contrário dos confrontos anteriores, no entanto,  as armas do grupo palestino desta vez pareciam causar mais danos aos israelenses. Alguns foguetes conseguiam driblar o Domo de Ferro, o poderoso sistema de defesa do país, e chegar até Tel-Aviv, antes um alvo impensável. O jornalista Roberto Godoy detalhou o avanço militar do Hamas. 

Israel insiste que o Hamas devolva os restos mortais dos soldados que detém desde 2014 e de dois cidadãos israelenses que presume-se que estejam detidos. O Hamas quer que Israel liberte centenas de prisioneiros palestinos e pare de bloquear milhões de dólares que o Catar está tentando enviar para pagar os salários do governo palestino em Gaza.

À medida que as negociações prosseguem, um programa internacional para ajudar na reconstrução de Gaza está esperando para ser lançado. Israel ainda não abriu as passagens de fronteira, exceto para o tráfego humanitário e de emergência. Nenhuma correspondência chegou a Gaza desde o início dos combates em 10 de maio.

“A resistência não quer voltar ao confronto militar, mas os mediadores devem intervir para melhorar as condições de vida na Faixa de Gaza”, disse Hossam al-Dajni, analista político na Cidade de Gaza.

Nenhum dos lados conseguiu escapar da dinâmica que definiu o confronto desde o início dos anos 2000. Foi nessa época que o Hamas se voltou para o uso de foguetes caseiros que poderiam atingir Israel além das fronteiras de Gaza. A maioria dos foguetes e balões, que foram adicionados ao arsenal mais recentemente, causam mais medo do que danos, e os ataques em retaliação de Israel, em muitos casos, são contidos.

Três vezes antes – em 2008, 2012 e 2014 – as hostilidades aumentaram dramaticamente, causando vítimas significativas, apenas para voltar à rotina de conflito de baixa intensidade. Com exceção de uma invasão terrestre para derrotar o Hamas e outros grupos militantes de Gaza, dizem os analistas, o confronto provavelmente seguirá o mesmo padrão após os combates no mês passado.

“Acho que Israel está preso em uma situação de longo prazo em que vamos repetir essas grandes escaladas a cada poucos anos”, disse Chuck Freilich, ex-vice-conselheiro de segurança nacional israelense. “Não acho que haja grandes opções militares no momento. O que vamos fazer agora que não fizemos durante os primeiros 11 dias? ”

Comandantes militares israelenses dizem que estão determinados a quebrar o ciclo que os força a dar uma resposta a cada ataque contra Israel. Parte de sua estratégia era mirar nas instalações de fabricação de foguetes dos militantes, que os comandantes dizem estar escondidas em armazéns e fábricas em todo o enclave.

Um alto funcionário militar disse que o bombardeio israelense estava afetando as fábricas de montagem. Mas ele reconheceu que milhares de lançadores de foguetes não foram tocados e nada impediria o Hamas de reconstruir sua capacidade, a menos que os líderes políticos mudassem de estratégia. “O que era não é o que será”, disse o ministro da Defesa, Benny Gantz, no final dos combates.

Gantz, que continua ministro da Defesa no novo governo de coalizão mesmo após a saída de Binyamin Netanyahu do poder após 12 anos, disse que Israel deveria responder “brutalmente” aos ataques do Hamas ao sul de Israel.

O novo governo assumiu uma postura mais dura com o Hamas ao retaliar por balões incendiários e não esperar pelo lançamento de foguetes, mas os críticos dizem que a abordagem não alterará a dinâmica dos embates.

“O desafio do novo governo é mudar o paradigma”, escreveu o comentarista Ben Dror-Yemini do jornal Yedioth Ahronoth. “Os residentes do sul de Israel, centenas de milhares de pessoas, vivem em um medo perpétuo que é aliviado apenas brevemente e de forma intermitente.” Dror-Yemini pediu que Bennett pressionasse por um Plano Marshall internacional para reconstruir Gaza e desmilitarizá-la.

Os períodos de relativa quietude permitem que as pessoas de ambos os lados da fronteira continuem com suas vidas, acomodando sirenes e ataques intermitentes, em um estado de tensão permanente.

Em Gaza, por exemplo, ataques israelenses sacodem prédios e acordam crianças, mesmo quando bombas caem em campos abertos. “Não podemos viver dessa maneira”, disse Shahira Al-Diri, de 44 anos, da Cidade de Gaza. “É muito estressante para a alma.”

Nas comunidades israelenses ao redor de Gaza, os foguetes do Hamas frequentemente caem em fazendas ou são interceptados pelas baterias de defesa aérea de Israel. Mas o fogo que se aproxima aciona sirenes que dão a milhares de civis apenas alguns segundos para correr até abrigos contra bombas.

“É surreal viver aqui e olhar pela janela para ver foguetes voando pelo céu”, disse Zwick. “Mas eu realmente não vejo a solução para isso.”

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