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Ataques complicam planos de Obama

Reconciliação entre Índia e Paquistão é princípio básico da política externa do presidente eleito

Jane Perlez*, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Os ataques terroristas em Mumbai ocorrem num momento em que Índia e Paquistão, dois países imensos, hostis e com armas nucleares, começavam a melhorar suas relações, animados pelos Estados Unidos, em particular pelo futuro governo de Barack Obama. Tal avanço pode ser anulado rapidamente, com profundas conseqüências para Washington, se a Índia encontrar vestígios de envolvimento paquistanês na operação. Sem dar detalhes, a Índia afirmou na quinta-feira que "elementos" no Paquistão são responsáveis pelos ataques, suspeitas rejeitadas com veemência por Islamabad. Mas, seja quem for o responsável, a escala do atentado e a escolha de alvos internacionais dificultarão os planos do novo governo americano. A reconciliação entre Índia e Paquistão é um princípio básico da política externa do presidente eleito e do líder do Comando Central dos EUA, o general David Petraeus. O objetivo é convencer o Paquistão a concentrar seus esforços militares menos na Índia e mais nos militantes radicais das regiões tribais, que estão dilacerando a alma do Paquistão. Acredita-se que uma mudança estratégica do Exército paquistanês, deixando a Índia de lado para concentrar todos os esforços na luta contra o Taleban e a Al-Qaeda, debilitará os militantes que vêm combatendo ferozmente as forças da Otan no Afeganistão. Contudo, os devastadores ataques - mesmo que se descubra que os responsáveis são militantes indianos ou estrangeiros - provavelmente vão azedar as relações entre os dois países, aumentar a desconfiança e dificultar, pelo menos no curto prazo, as ambições americanas de uma reconciliação na região. Os primeiros sinais indicavam que a Índia, onde serão realizadas eleições estaduais na próxima semana, adotará uma posição dura, culpando o vizinho. Em um pronunciamento na quinta-feira, o premiê indiano, Manmohan Singh, que vem mantendo uma política relativamente moderada em relação ao Paquistão, foi áspero. Disse que os ataques tinham "ligações externas" e foram cometidos por um grupo "com base fora do país". Afirmou que os "vizinhos" arcarão com um "custo alto" caso seja descoberto que seu território foi usado como trampolim para os terroristas. O primeiro-ministro não falou nominalmente no Paquistão. Mas todos, incluindo os noticiários da TV paquistanesa na noite de quinta-feira, entenderam a quem ele se referia. Entenderam também que a longa história de acusações recíprocas tinha acabado de retornar. De acordo com o influente jornal indiano Hindustan Times, os serviços de segurança da Índia acreditam que o responsável pelos múltiplos ataques é o grupo islâmico Lashkar-i-Taiba, que opera com base no Paquistão. Segundo o jornal, o secretário especial do Ministério do Interior indiano, M.L. Kumawat, admitiu que essa "é uma nítida possibilidade". Mas o jornal não chegou a afirmar que o ISI, serviço de inteligência paquistanês, teria ajudado o grupo a planejar e executar a operação em Mumbai, papel que o governo indiano já atribuiu ao ISI em ocasiões anteriores. "Se os indianos acreditarem que há a mão do ISI nos atentados, podemos ter uma crise como a de 2002, com uma pressão enorme para que alguma coisa seja feita", disse um funcionário do governo americano que não quis se identificar.Depois da morte de dezenas de pessoas num ataque ao Parlamento indiano em Nova Délhi, em 2001, a Índia culpou o grupo militante islâmico Jaish-i-Muhammad e acusou o ISI de apoiar a operação. Durante 2002, os dois vizinhos estiveram à beira de uma guerra, com suas forças militares mobilizadas ao longo da fronteira de mais de 2,8 mil quilômetros. Segundo o livro The Search for Al-Qaeda (A Busca pela Al-Qaeda, tradução livre), de Bruce Riedel, assessor de Obama para o sul da Ásia, Osama bin Laden trabalhou com a agência de inteligência paquistanesa no final dos anos 80 para treinar o Lashkar-i-Taiba. Esse grupo teria o objetivo de combater o domínio indiano na Caxemira. O novo presidente paquistanês, Asif Ali Zardari, parece querer agir segundo os planos estratégicos dos EUA e tenta melhorar as relações com a Índia. Como é empresário, ele sabe dos benefícios de um comércio bilateral vigoroso. Recebendo agora ajuda do FMI, o Paquistão lucraria muito com a normalização das relações. Zardari propôs a abolição de visto para viagens entre os dois países - um grande avanço, especialmente numa situação em que não existem vôos ligando as capitais dos dois países. Falando para uma platéia indiana em uma videoconferência, na semana passada, Zardari propôs à Índia uma política em que "nenhum dos dois iniciará um ataque nuclear". Disse também que o sul da Ásia deve ser uma zona livre de armas nucleares, o que poderia ser alcançado por meio de um "tratado não nuclear". "Posso persuadir meu Parlamento nesse sentido, mas vocês conseguirão convencer o seu?"Mas autoridades paquistanesas dizem que os sentimentos do presidente não refletem a política do poderoso establishment da segurança paquistanesa. Será necessário mais do que observações de improviso para agradar à platéia durante um jantar para mudar as políticas de longa data, afirmam analistas paquistaneses. *Jane Perlez é correspondente em Islamabad

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