Ataques contra minoria matam 80 no Paquistão

Militantes invadem duas mesquitas da seita ahmadi e travam batalha com forças policiais

, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2010 | 00h00

Militantes islâmicos armados com fuzis e explosivos atacaram ontem duas mesquitas da seita ahmadi, minoria religiosa no Paquistão, deixando pelo menos 80 mortos. Os massacres coordenados ocorreram na cidade de Lahore, capital da Província do Punjab, na região da fronteira com a Índia.

Segundo a polícia, pelo menos sete homens efetuaram os ataques, incluindo três homens-bomba. Na primeira ação, no bairro de Model Town, militantes invadiram rapidamente a mesquita disparando seus fuzis a esmo e lançando granadas. Na segunda, a poucos quilômetros, em Garhi Shahu, a troca de tiros entre agressores e forças de segurança durou quatro horas e os militantes fizeram reféns.

Além dos 80 mortos, quase 100 paquistaneses teriam ficado feridos nas ações.

Xiitas têm sido o principal alvo da violência sectária paquistanesa, embora radicais sunitas também tenham atacado cristãos e ahmadis. Mas os atentados de ontem atingiram uma escala inédita no histórico de ações contra os ahmadis.

A seita é considerada herética por setores islâmicos por não considerar que Maomé é o último profeta e antes era vítima de leis discriminatórias no Paquistão. Diferentemente de xiitas e sunitas, os ahmadis acreditam que o fundador de sua corrente, Mirza Ghulam Ahmad, foi um messias legitimamente reconhecido pelo Alcorão.

Batalha no minarete. O aumento da influência de grupos sunitas como Al-Qaeda e Taleban ampliou a tensão sectária no Paquistão, Estado considerado frágil, cujo governo é fortemente alinhado aos EUA.

Imagens de uma TV local mostravam um dos militantes que atacou a mesquita de Garhi Shahu no topo do minarete do templo, disparando contra a polícia e lançando granadas. Do chão, forças de segurança respondiam com rajadas de fuzil.

Sajjad Bhutta, vice-comissário de polícia de Lahore, afirmou que foram três os agressores que fizeram reféns. Eles usavam coletes repletos de munição e disparavam incessantemente contra as forças de segurança. "Os militantes lutaram por algum tempo, mas, ao verem que estavam derrotados, detonaram os explosivos que carregavam." Dois dos sete agressores foram detidos pela polícia, afirmou Bhutta.

Luqman Ahmad, de 36 anos, aguardava sentado na mesquita o início das orações, quando começou a escutar disparos e explosões. Assustado, ele pulou no chão e fechou os olhos.

"Foi como se uma guerra estivesse ocorrendo à minha volta. Os gritos que escutava causavam calafrios", diz Ahmad. "Fiquei rezando para que Deus me salvasse desse inferno." O paquistanês só se levantou e abriu os olhos após policiais avisarem que todos os militantes haviam sido mortos ou presos.

CRONOLOGIA

Onda de terror em Lahore

15 de outubro

Policiais na mira

Militantes lançam ataques simultâneos em delegacias de polícia. As ações, que deixaram 38 mortos, seriam um recado ao governo, que conduzia uma ofensiva na Província do Waziristão.

27 de maio de 2009

Taleban reivindica ação

Um complexo da polícia e o principal escritório da temida agência de espionagem do Paquistão, a ISI, são alvo de novos ataques. Baitullah Mehsud, líder taleban, assume autoria da ação, que deixou 24 mortos.

Março de 2009

Recrutas e esportistas

Em um mês sangrento, a academia de polícia de Manawan e a equipe de críquete do Sri Lanka são alvos de ataques em Lahore

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.