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Ataques dão chance à cooperação

Terrorismo conecta de maneira definitiva Índia e Paquistão; um não pode prosperar sem o outro

Mohsin Hamid*, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Na pressa para culpar o Paquistão pelas atrocidades em Mumbai, um erro perigoso está sendo feito. Claro que o impulso de culpar o Paquistão é compreensível: o passado está repleto de exemplos das agências de inteligência indiana e paquistanesa trabalhando para desestabilizar o inimigo do outro lado da fronteira. Ainda é muito cedo, porém, para saber quem está por trás dos ataques. Alguns ou todos os terroristas podem ser paquistaneses. Da mesma forma, podem ser todos indianos. O desejo de alguns na Índia de colocar a culpa no Paquistão antes que as provas o façam é uma tentativa de evitar a introspecção. Índia e Paquistão são mais parecidos do que os políticos de ambos os países tendem a reconhecer. A narrativa triunfalista da Índia como um sucesso incrível e a narrativa derrotista do Paquistão como um desastre eminente são ambas meias verdades. Por boa parte deste século, o Paquistão desfrutou de taxas de crescimento econômico que não ficam muito atrás das indianas. E, este ano, o Paquistão seguiu os passos do vizinho e voltou à democracia.A Índia, como o Paquistão, é lar de muitas insurgências em gestação. Se os recentes protestos na Caxemira tivessem ocorrido em uma ex-república soviética, teriam sido vendidos como uma nova Revolução Laranja. De forma similar, as tensões no nordeste indiano, o movimento armado Naxalite e o massacre de muçulmanos em Gujarat, todos contribuem para transformar a "Índia brilhante" em meia verdade. Paquistão e Índia sofrem com a praga da violência extremista. Em 60 anos de independência, ambos falharam dramaticamente com seus pobres. No início do ano, o Banco Mundial divulgou relatório dizendo que metade das crianças indianas são tão desnutridas que não atingem o tamanho normal. É o dobro da taxa de desnutrição da África negra. A razão de apontarmos as semelhanças entre Índia e Paquistão não é negar as realizações das quais o povo indiano se orgulha. A idéia é mostrar que os países estão nessa juntos. Sua luta contra o terrorismo não pode ser separada por fronteiras nacionais. Assim como Paquistão e Afeganistão devem cooperar para resolver o problema da violência extremista, o mesmo devem fazer Paquistão e Índia.PARCERIA Nunca houve uma oportunidade melhor para tal cooperação. As pessoas que melhor podem entender o que os residentes de Mumbai estão enfrentando são os moradores de Islamabad. A destruição do hotel Marritott, na capital paquistanesa, há pouco tempo, prenunciou os ataques ao Oberoi e ao Taj. Os combates armados entre os extremistas e as forças do governo no sul de Mumbai trouxeram ecos da prolongada batalha na Mesquita Vermelha de Islamabad, ano passado. Assim como Nova Délhi este ano, Lashore também sofreu com atentados a bomba. Assim como o coronel de Exército indiano, elementos das Forças Armadas paquistanesas foram acusados de apoiar terroristas. Obviamente, Índia e Paquistão não são iguais, mas os paralelos são admiráveis. Continuar ignorando esse fato apenas divide dois países que poderiam ter grandes benefícios com uma maior unidade. Felizmente, uma união é possível. O Paquistão está emergindo de um longo período de negação do terrorismo. O Exército paquistanês está engajado numa grande ofensiva contra extremistas nas áreas tribais, disposto a provocar centenas de baixas e desalojar centenas de milhares de cidadãos paquistaneses no processo. O presidente Zardari está oferecendo ramos de oliva à Índia na forma de apelos para uma maior cooperação contra o terrorismo, além de integração econômica e acordos sobre a Caxemira. O governo indiano tem se mostrado lento em aproveitar a oportunidade. Os ataques a Mumbai poderiam ser o pretexto perfeito para rejeitar a abertura do Paquistão e permitir que a tensão aumente novamente entre os dois países.Tal reação beneficiaria apenas os terroristas. Ela seria extremamente eficiente apenas para tirar o Exército paquistanês da ofensiva nas áreas tribais e para virar a opinião pública no Paquistão, que começa a se posicionar contra o extremismo. UNIDOSA alternativa é reconhecer que o terrorismo conecta de maneira definitiva Índia e Paquistão. Um não pode prosperar sem o outro. O único caminho para atingir a segurança é o da cooperação. Quando o terrorismo ataca, a resposta natural é o ódio. No entanto, a sabedoria está em perceber que Índia e Paquistão estão unidos pelo mesmo sofrimento. *Mohsin Hamid, escritor paquistanês, é autor de The Reluctant Fundamentalist ("O fundamentalista relutante")

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