Ataques de Esperanza

O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, líder do Partido Popular (PP), fez ontem seu discurso anual sobre o Estado da Nação. Não lhe faltaram assuntos de tanto que esse país, 40 anos após a morte de Francisco Franco, está cheio de reumatismos, febres, langores, pústulas e nostalgias.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2013 | 02h01

A economia espanhola está quebrada. Rajoy aplicou fielmente os planos de austeridade fiscal, mas o marasmo não descerrou suas mandíbulas de ferro: desemprego (sobretudo entre os jovens), falências, aeroportos, estações ferroviárias e conjuntos habitacionais inacabados e já ao abandono. A Espanha de 2013 se parece com as pinturas trágicas de Chirico apresentando cidades desabitadas - cidades fantasmas.

Mas, além disso, a crise econômica é multiplicada por uma crise política. Num restaurante de Barcelona, um vaso de flores com um microfone oculto introduzido por uma agência de detetives particulares registrou confidências assombrosas. A amante do filho do ex-presidente nacionalista da Catalunha, por exemplo, confiou a esse vaso de flores que seu amante fez uma viagem a Andorra com uma sacola cheia de notas de 500.

Práticas vergonhosas como essa não são o apanágio do partido de direita que é o governista PP. Deputados e empresários, funcionários públicos e até juízes, todas as nuances do espectro político, estão presentes nesse "baile de malandros" em cores dignas de Goya.

No PP, as balas passam zumbindo por todos os lados, sobretudo perto das orelhas do premiê Rajoy, desde que o ex-tesoureiro do partido Luis Bárcenas revelou que todos os chefes do PP, Rajoy entre eles, receberam "complementos salariais" durante dez anos.

Uma mulher do PP conduziu a ofensiva contra Rajoy. Trata-se de Esperanza Aguirre y Gil de Biedma, condessa de Murillo e Grande de Espanha, que foi ministra da Cultura e ex-presidente da região de Madri.

Pobre Rajoy! Não é nada bom ter contra si uma dama com um nome tão vistoso. Sobretudo porque Esperanza não economiza seus projéteis.

Ultraliberal e "recentralizadora", alinhada com as posições da poderosa Conferência Episcopal, Esperanza tem um modelo absoluto: Margaret Thatcher, o que não dá nenhum moral a seus adversários.

Esperanza tem apoios poderosos, em particular o jornal El Mundo e o patronato de Madri que se regozija porque os impostos sobre o patrimônio não são deduzidos na região de Madri e deseja que as medidas de austeridade indispensáveis atinjam, sobretudo, as despesas com educação e saúde.

Essa é a inimiga que Rajoy terá de enfrentar em seu próprio partido.

Alguns anos atrás, Esperanza Aguirre quis tirar a direção do partido de Rajoy, mas desistiu no caminho. A tentação poderá se reanimar agora.

No papel, as posições de Rajoy continuam fortes. Ele dispõe de uma maioria sólida no Parlamento. Mas o debate sobre o discurso do Estado da Nação de ontem poderá abrir brechas na couraça de Rajoy, ainda mais que o chefe do Partido Socialista, Alfredo Pérez Rubalcaba, pretende exigir a demissão do premiê.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris.
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