Ataques debilitam governo às vésperas de eleições

Líderes indianos expõem-se à derrota amanhã, em Nova Délhi

Cláudia Trevisan, PEQUIM, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

A cinco meses das eleições gerais na Índia, os ataques terroristas em Mumbai atingiram em cheio a popularidade do governista Partido do Congresso e aumentaram as chances de sucesso dos nacionalistas do Partido Bharatiya Janata (BJP), que defendem uma política mais dura em relação às minorias do país, especialmente os muçulmanos.A incapacidade do governo de evitar atentados e a ineficiência das forças de segurança enfureceram a população, que saiu às ruas para protestar contra o Paquistão e os políticos indianos.Visto como inoperante, o governo sofreu derrotas importantes nas eleições estaduais e enfrentará uma prova decisiva em Nova Délhi, onde haverá votação amanhã. "Uma derrota em Délhi será vista como um enfraquecimento do mandato do Partido do Congresso", disse ao Estado o analista político Sanjay Kumar, do Centro de Estudos de Sociedades em Desenvolvimento, com sede na capital indiana.O Partido do Congresso, do premiê Manmohan Singh, é dirigido por Sonia Gandhi e liderou o movimento de independência, em 1947. Desde então, se manteve no poder a maior parte do tempo e só encontrou um opositor de peso no BJP, que governou o país de 1999 a 2004. Defensor do nacionalismo hindu, o BJP diz que os muçulmanos são "invasores" e acusa o Partido do Congresso de ser leniente com a minoria muçulmana - 13% da população, ou 150 milhões de pessoas. Os hindus são 80% dos indianos.O eventual fortalecimento do BJP acentua a polarização da sociedade indiana entre hindus e muçulmanos. Dois anos atrás, um comitê nomeado por Singh concluiu que os muçulmanos têm indicadores sociais piores que a média. O documento indica disparidades em vários itens, incluindo alfabetização, empréstimos bancários, transporte público e renda. Javed Anand, secretário-geral da entidade Muçulmanos por uma Democracia Secular, lembra que a política mais dura do BJP não evitou ataques terroristas quando a legenda estava no poder. Em 2001, o Parlamento foi invadido por cinco terroristas, que morreram em confronto com a polícia.O BJP respondeu com a aprovação do Ato de Prevenção do Terrorismo, que deu ao governo poderes extraordinários para investigar e processar suspeitos. Considerada draconiana pelo Partido do Congresso, a lei foi revogada assim que Singh assumiu o poder.A decisão deu munição para que os nacionalistas hindus acusassem o governo de fraco e de agir com o objetivo de garantir o voto dos muçulmanos, que tradicionalmente apóiam o Partido do Congresso. Kumar ressalta que os ataques podem fortalecer o BJP nas cidades, mas não necessariamente na zona rural, onde vive quase 70% da população. "As pessoas do campo estão mais preocupadas com a sobrevivência do dia-a-dia", diz.Nesse terreno, a posição do governo também se enfraqueceu, graças à inflação, que ronda os 9% e reduz o poder de compra da população pobre. A força política que pode minar a posição do Partido do Congresso entre os mais pobres é o Partido Bahujan Samaj (BSP), que se diz representante dos dalits ou "intocáveis", hindus que não pertencem a nenhuma casta e são altamente discriminados.Em tese, o sistema de castas acabou depois da independência, mas ele continua a definir as relações sociais e econômicas do país. O BSP é liderado por Mayawati Kumari, governadora do Estado mais populoso da Índia, Uttar Pradesh, que já declarou sua intenção de ser premiê. Ela poderia se aliar ao Partido do Congresso para formar um novo gabinete, caso ninguém obtenha votos suficientes para governar o país sozinho.

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