LOUAI BESHARA / AFP
LOUAI BESHARA / AFP

Ataques do Estado Islâmico na Síria afetam negociação para o fim da guerra

Após três explosões perto de santuário xiita que deixaram dezenas de mortos, governo de Bashar Assad e oposição, que se reúnem em Genebra, trocam acusações e futuro do processo para tentar encontrar uma solução política para o conflito é incerto

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2016 | 21h09

GENEBRA - Após os ataques cometidos pelo Estado Islâmico deixarem ao menos 60 mortos neste domingo, 31, nas proximidades de Damasco, na Síria, a reunião para tentar acabar com os cinco anos de guerra no país começou na Suíça em um impasse, com governo e oposição síria usando o atentado para justificarem suas intransigências.

Os representantes do governo de Bashar Assad não aceitam a imposição de precondições para sentar à mesa e a oposição insiste que não vai negociar enquanto não tiver atendidas suas “exigências humanitárias”.

Neste domingo, o mediador da ONU, Staffan de Mistura, realizou a primeira reunião com o grupo opositor Alto-Comitê de Negociações. Mas as conversas logo chegaram a um impasse em Genebra, após homens-bomba do EI matarem ao menos 60 pessoas e ferirem mais de 110 perto do santuário xiita mais sagrado da Síria. Pelo menos 25 vítimas eram combatentes xiitas.

O grupo jihadista reivindicou a autoria das três explosões, que ocorreram no bairro de Sayeda Zeinab, uma das principais bases de milícias e local de peregrinação de xiitas para verem o túmulo da filha de Ali ibn Abi Talib, considerado pelos xiitas o sucessor de Maomé. A disputa sobre a sucessão do profeta deu início ao racha entre sunitas e xiitas.

Após os ataques, o governo sírio acusou a oposição. “Isso confirma que existe uma ligação entre o terrorismo e aqueles que o financiam e grupos políticos que fingem estar contra o terrorismo”, disse o chefe da delegação do governo, Bashar Jaafari.

“Não vamos lidar com terroristas. Potências estrangeiras estão endossando agendas externas, com a meta de colocar pressão política sobre o governo ao usar o terrorismo como arma política”, afirmou, acusando a oposição de “não ser séria”.

Continuidade. Na ONU, a decisão foi manter as negociações, que, segundo os mediadores, podem levar seis meses para chegar a uma solução política que encerre o conflito que deixou mais de 260 mil mortos. O objetivo imediato das conversas é conseguir um cessar-fogo.

No início da noite, ainda havia dúvidas sobre a realização de reuniões que estavam confirmadas para hoje. A ideia era que oposição e governo se encontrassem com Mistura em reuniões separadas, mas, por e-mail, a ONU admitiu que não havia confirmação de que isso ocorreria.

A oposição não deu garantias de que continuaria negociando. “Se as violações ao povo sírio continuarem, não existe motivo para ficar e o Alto-Comitê de Negociações poderia abandonar o processo”, disse o coordenador do grupo, Riad Hijab.

Jaafari afirmou que Damasco considera a criação de corredores humanitários, acordos de cessar-fogo e troca de prisioneiros. Mas isso, segundo ele, seria resultado das negociações e não uma precondição.

A oposição diz que o principal obstáculo é chegar enfraquecida ao processo. O grupo acusa os russos de terem intensificado os ataques aéreos nas semanas anteriores às reuniões.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, fez um apelo às delegações para não desistirem do processo. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, ressaltou que não existe solução militar para a guerra síria e pediu o fim dos bloqueios do governo em cidades do país.

Para Kerry, um avanço nas negociações minaria o poder do EI. “Um êxito em Genebra não está garantido. Mas pedimos que todos usem essa oportunidade”.

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