Ataques dos EUA na Síria ameaçam trégua, diz Rússia

Observatório Sírio para Direitos Humanos aponta para 90 o número de soldados mortos pelos ataques aéreos durante o fim de semana

O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2016 | 05h00

A Rússia subiu o tom e afirmou ontem que os ataques aéreos da coalizão liderada pelos EUA, que no sábado atingiram uma posição do Exército sírio na cidade de Deir al-Zor, matando cerca de 62 soldados, colocam em risco o cessar-fogo na Síria. Horas depois, aviões não identificados lançaram mísseis sobre áreas controladas por rebeldes em Alepo, afirmou o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que já aponta para 90 o número de soldados mortos.

O Ministério de Relações Exteriores da Rússia denunciou a posição dos EUA sobre o incidente como “desconstrutiva e desarticulada.” “As ações de pilotos da coalizão – se eles, como esperamos, não receberam uma ordem de Washington – estão na fronteira entre negligência criminosa e conivência com terroristas do Estado Islâmico”, informou o ministério em um duro comunicado.

“Nós veementemente pedimos a Washington que exerça a pressão necessária sobre grupos armados ilegais sob sua patronagem para implementarem o plano de cessar-fogo incondicionalmente. De outra forma, a implementação de todo o pacote dos acordos entre EUA e Rússia alcançados em Genebra em 9 de setembro pode estar em risco.”

A Rússia tem repetidamente pedido que os Estados Unidos pressione unidades moderadas de oposição na Síria a se separarem do Estado Islâmico e de outros “grupos terroristas”.

No dia dos ataques, o Comando Central dos Estados Unidos divulgou um comunicado admitindo ter atingido posições do Exército sírio perto de Deir ez-Zor, mas afirmou que não tinha a intenção de alvejar os militares sírios. O alvo seriam os terroristas do Estado Islâmico.

Cessar-fogo. O que está em jogo com os ataques do fim de semana é o acordo feito entre os EUA e a Rússia para reduzir a violência na Síria e, assim, abrir espaço para uma negociação de paz com o objetivo de dar fim ao conflito. Pelo pacote negociado em Genebra, no dia 9 de setembro, por mais de 15 horas, americanos e russos se comprometeram a lutar pela primeira vez de forma conjunta contra o Estado Islâmico e a Frente al-Nusra. Além disso, ficou acertado um cessar-fogo que entrou em vigor na segunda feira passada.

As negociações pareciam promissoras e o acordo ia muito além do fim das hostilidades. Pela primeira vez, havia sido estabelecida uma coordenação militar real entre Washington e Moscou para a luta contra o terrorismo. O anúncio do acordo também foi a primeira ocasião em que a Casa Branca não colocou a saída do presidente sírio Bashar Al-Assad como uma precondição para que houvesse uma negociação.

Dando um tom ambicioso ao acordo, o chefe da diplomacia americana chegou a apontar que o plano poderia ser “o ponto de virada” no conflito que já deixou mais de 250 mil mortos. O secretário de Estado americano, John Kerry, quando questionado se esse não seria apenas mais um cessar-fogo fadado ao fracasso, como outros, Kerry garantiu que, desta vez, o entendimento é mais sólido. “Criamos uma nova estrutura. Das outras vezes, Assad continuava a bombardear, mesmo com acordos de cessar-fogo. Quem estava cumprindo o acordo dizia que precisava responder”, disse ele na ocasião. / AGÊNCIAS INTERNACIONAIS.

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