Adam Ferguson/The New York Times
Adam Ferguson/The New York Times

Ataques em Cabul movimentam a indústria de proteção

Depois da explosão de um enorme caminhão-bomba perto de uma agência de segurança afegã de elite em abril, aumenta a procura por fábricas de barreiras e muros de proteção

Mujib Mashal - The New York Times*, O Estado de S. Paulo

30 Maio 2016 | 12h23

Depois dos bombardeios recentes em Cabul, novos muros de proteção de concreto foram colocados, mais altos do que os anteriores. As ruas que levam a casas de pessoas importantes estão bloqueadas ao trânsito. Dirigir em alguns bairros é se meter em um frustrante jogo de navegação em labirinto, com barricadas surpresa que surgem durante a noite.

Em um reflexo sombrio da vida na capital afegã, as pequenas fábricas de barreiras e muros de proteção se sucedem na periferia da cidade entre os poucos negócios que conseguiram permanecer basicamente viáveis apesar da economia em frangalhos. Misturadores despejam concreto e os trabalhadores o colocam em moldes de madeira. Os caminhões levam os muros em forma de T para locais em toda a cidade, uma das mais cheias de barricadas do mundo.

“É a nossa triste realidade: depois de um atentado suicida, temos mais trabalho”, afirma Noor ul Haq, que vem administrando um desses pequenos negócios há seis anos.

Depois da explosão de um enorme caminhão-bomba perto de uma agência de segurança afegã de elite em abril, Haq recebeu a visita de 15 potenciais clientes em uma semana. O ataque foi tão grande que quebrou vidraças em uma grande extensão da cidade e lançou pedaços de corpos no Rio Cabul, que estava muito cheio depois de dias de chuva. “Na semana anterior ao atentado, não tivemos clientes”, conta ele.

Como a maioria dos “ataques complexos” de Cabul - que envolve bombardear um prédio e depois mandar os combatentes -, o de abril foi reivindicado pela rede haqqani, um braço da insurgência conhecido por suas agressões urbanas. A crescente integração dos haqqani com o dominante Taleban, em um momento em que as negociações de paz falharam, aumentou os temores desse tipo de investida, e os muros de proteção estão se multiplicando.

As estruturas sem graça costumavam ter 3,4 metros de altura, mas as mais novas possuem 6 metros, tanto para repelir a força de grandes explosões quanto para bloquear a visão de atiradores do Taleban.

Os muros de proteção se tornaram uma parte tão integrante da identidade de Cabul que se misturam à paisagem urbana. A maioria dos moradores aceita o estreitamento de ruas e rotatórias e o bloqueio da vista de prédios icônicos como fatos da vida.

Ativistas e artistas tentaram transformá-los em telas para suas mensagens. Um projeto em particular, ArtLords, está deixando sua marca. A lógica é simples: você não tem o poder de escapar dos muros, então pode usá-los para lembrar as pessoas sobre alguns dos flagelos da sociedade, como a corrupção, tão arraigada que parece inevitável.

“Tenho orgulho do meu pai - ele não é corrupto”, diz uma mensagem em corajosas letras pretas, do lado de um mural do ArtLords. Está pintada em um muro de proteção de um prédio que pertence ao Ministério das Finanças, considerado há tempos uma das instituições mais corruptas do Afeganistão.

Em um dos principais quarteirões de Cabul, os muros que protegem uma base militar estão pintados de verde-oliva claro. Um pequeno parque, com dois bancos, grama e roseiras, parece ter crescido na frente do muro, proporcionando um refúgio para os visitantes de um dos hospitais mais movimentados da cidade, que fica na esquina, ou do Ministério de Saúde Pública, do outro lado da rua.

Mas a visão dos bancos está em grande parte bloqueada por uma tenda improvisada para o descanso de policiais que fazem a ronda da rotatória. A tenda está rodeada de muros de proteção. Mais além dela, é possível avistar muros mais altos da Embaixada dos Estados Unidos, um complexo de 15 hectares. O único ponto de cor visível é a ponta azul de um minarete na rotatória, dedicado a uma famosa vítima de um atentado suicida.

Os muros de proteção são o legado mais visível da guerra dos Estados Unidos, e eles não são exclusivos do Afeganistão. No pico da violência em Bagdá, era raro encontrar uma rua sem barreiras ou muros. Centenas de milhares de muros, cada um custando quase US$ 1 mil, dividiam bairros inteiros para prevenir o fluxo de insurgentes. Quando a violência diminuiu brevemente e o governo decidiu retirar os muros e deixar a cidade respirar um pouco, as autoridades não tinham ideia do que fazer com eles. Caminhões os transportaram para um deserto.

Mas não por muito tempo. À medida que a violência em torno de Bagdá aumentou de novo, com bombardeios se tornando uma ocorrência quase diária, o Comando de Operações decidiu usar os muros para construir um cinturão de proteção em volta da cidade. A primeira fase do projeto, que começou em fevereiro, tem 99 quilômetros.

Em Cabul não houve movimentos sérios para tirar os muros do lugar - a segurança tem se intensificado nos últimos anos.

Apesar de os muros prenderem a paisagem e a consciência da cidade, no entanto, os negócios que se dedicam a eles não estão exatamente prosperando. Seus melhores dias acabaram depois da retirada das forças americanas, cuja necessidade de proteção de suas bases era o motor da indústria de barreiras de proteção.

Por volta de 2010, a Khwajazada Construction Co. tinha contratos para cerca de mil muros de proteção por vez, carregando caminhões dia e noite, conta Behdar Kohistani, ex-professor que hoje é o gerente da empresa. Agora a companhia só possui alguns pedidos de funcionários do governo que não pagam no prazo. Os preços também caíram, de cerca de US$ 400 no pico para menos de US$ 200 por muro agora.

“Faz três anos que vendemos muros de proteção para três altos funcionários, e eles ainda não pagaram”, afirma Kohistani.

Ao contrário dos americanos, que pagam assim que os muros são entregues, o governo não quer gastar e se volta para a reciclagem, conta Mahdi Shahi, que administra uma empresa na mesma rua da Khwajazada. “Eles não compram novas barreiras - levam da casa de um ministro para outra”, explica.

Para passar o tempo até o próximo pedido, depois da próxima explosão, Kohistani, que também é um prolífico poeta, compõe versos no papel de carta da empresa: Meu levantar, por décadas já, destruiu portas e paredes. Mas apenas uma pequena voz corrupta despedaça meu coração.

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