Ataques na Síria provocam diferentes reações na região

ANÁLISE: Ben Hubbard / NYT

O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2014 | 02h01

A nova intervenção militar na Síria por parte dos EUA e cinco aliados árabes provocou diferentes reações no Oriente Médio, uma região onde muitos odeiam a brutalidade do Estado Islâmico (EI), mas também demonstram profundo ceticismo diante da motivação por trás de todo tipo de intervenção estrangeira.

A nova campanha lembra as recentes intervenções lideradas pelos EUA na Líbia e no Iraque, que foram bem recebidas por muitos árabes no início, mas terminaram repudiadas por levar a novas ondas de instabilidade e guerra civil.

O presidente Barack Obama, para quem a oposição à guerra do Iraque foi uma peça central de sua campanha eleitoral, insistiu que a luta contra o EI será diferente, sem levar à região soldados americanos para lutar em terra.

A mudança de governo nunca foi mencionada como objetivo e a participação de Estados árabes foi considerada fundamental para afastar as críticas, segundo as quais os EUA estariam travando uma guerra contra os muçulmanos.

Alguns dos participantes árabes, especialmente Catar e Arábia Saudita, estão envolvidos há anos na guerra civil da Síria. Por isso, juntar-se à coalizão internacional é para eles apenas uma forma de intervenção mais direta.

A Arábia Saudita, além de outros países como Jordânia e Bahrein, teme que seus cidadãos que foram à Síria para se unir às forças do EI retornem para planejar ataques. E os Emirados Árabes Unidos apoiaram os esforços para combater uma série de movimentos islâmicos em toda a região. "É assim que temos de agir se quisermos derrotar o EI, pois não podemos cortar o rabo e deixar a cabeça intacta", disse Ebtesam al-Ketbi, presidente do Centro de Políticas dos Emirados. "E todos estão participando, de modo que é impossível acusar apenas os EUA."

Outros avaliam que o EI está difundindo uma interpretação distorcida do Islã, apoiando a luta contra a entidade. "Trata-se de uma minoria de extremistas que nada tem a ver com o restante dos muçulmanos do mundo", disse Issa Alghaith, membro do conselho Shura da Arábia Saudita.

Em Bagdá, provavelmente a cidade com mais experiência em ataques aéreos americanos, muitos celebraram o bombardeio contra Raqqa, capital "de facto" dos extremistas na Síria, e a única crítica à campanha era por não ter começado antes.

"A reação americana à situação no Iraque é tardia", disse Kadhem el-Maqdadi, jornalista e comentarista de Bagdá. Os EUA concordaram em ajudar o Iraque se o país fosse atacado, destacou ele, "mas essa ajuda só veio depois que o vírus do EI tinha se espalhado por todo o Iraque".

Muitos na Síria dizem estar contentes ao ver o enfraquecimento do controle do grupo sobre Raqqa, mas se mostraram preocupados com a possibilidade de as forças do governo aproveitarem o bombardeio aéreo como uma oportunidade para avançar.

Os sírios que apoiam o governo também disseram estar contentes por ver o grupo radical ser atingido, mas demonstraram receio quanto ao objetivo final da coalizão formada por árabes e americanos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É JORNALISTA

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