(SANA via AP)
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'Ataques não resolvem a guerra', diz brasileiro que investiga crimes na Síria

Segundo especialista da ONU consultado pelo Estado, a intervenção do Ocidente não muda em nada o curso da guerra civil na Síria

Jamil Chade, Genebra

14 Abril 2018 | 10h53

Os ataques à Síria neste sábado, 14, ordenados por Estados Unidos, França e Reino Unido, não resolvem nem mudam a natureza da guerra, segundo o especialista brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito da ONU sobre crimes na Síria. Há sete anos, ele investiga a situação da pior crise militar e humanitária do mundo no século 21.

Em entrevista ao Estado, Pinheiro insiste que ainda não existem provas de que os ataques tenham vindo do regime de Bashar al-Assad. Confira os principais trechos da entrevista: 

+++ Ataque à Síria: tudo o que você precisa saber

Vimos o que aparenta ser um ataque químico na Síria há uma semana. Até que ponto isso é algo novo no processo de sete anos de guerra?

Nesse período, a realidade é que fizemos investigações sobre vários ataques químicos. Muitos deles foram realizados pelo governo de Assad e parte pela oposição. Quanto a esse último incidente, estamos esperando ainda o resultado das investigações da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq). O fato de termos ataques não significa que ele venha necessariamente do governo. Nós, na Comissão de Inquérito, continuamos a esperar pelos resultados da investigação. Já os três países ocidentais decidiram não esperar. 

Mas no que esse ataque muda a guerra?

Não há nada resolvido só porque eles decidiram atacar. Não muda em absolutamente nada a natureza da guerra. Além disso, é importante deixar claro que esse conflito não terá uma solução militar. No fundo, esse ataque não muda em nada o curso da guerra. O que, sim, nos preocupa é que uma eventual escalada pode ter, uma vez mais, repercussões para a população civil. 

Mas por que o sr. acredita que não há uma mudança?

A guerra não será alterada se a Síria mantém estoques de armas químicas. Aparentemente, os ataques fizeram o máximo para evitar focos russos na Síria. Mas acordamos neste sábado com uma ofensiva que não muda em nada o curso da guerra. O que parece ser o caso é de que ela será um ataque limitado. 

Se não há então uma mudança no curso da guerra, o que ainda pode dar alguma solução?

O diálogo. Ele precisa continuar e, de fato, isso está sendo mantido. O que sabemos é que os grupos de trabalho sobre a questão humanitária estão mantidos e onde americanos e russos continuam dialogando. Não há solução militar para a guerra. Hoje, apesar dos ataques, os problemas continuam. 

Como o sr. explica o fato de a guerra não conseguir chegar a uma solução, depois de sete anos?

Está ficando claro que esse é um conflito difícil de parar. Em primeiro lugar, os recursos são infindáveis. Além disso, as populações dos países implicados não se sentem afetadas e, portanto, não existe uma pressão sobre os governos. 

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