Ataques recebem apoio na Europa, mas críticas no Oriente Médio

O ataque anglo-americano contra o regime Taleban e a rede de Osama bin Laden no Afeganistão recebeu hoje amplo apoio na Europa, mas produziu revolta e protestos no Oriente Médio, onde alguns insistiram que as ações de Israel contra os palestinos também merecem punição. O ataque provocou críticas no Irã, Sudão e Líbano, entre outros países, e protestos em todo o mundo islâmico. Em Luxemburgo, ministros do Exterior da União Européia (UE) afirmaram num comunicado que Bin Laden, o principal suspeito dos ataques de 11 de setembro em Nova York e Washington, seu movimento Al-Qaeda e o regime Taleban, que o abriga, "estão agora enfrentando as conseqüências de suas ações". Os bombardeios receberam amplo apoio na Alemanha e França, dois aliados-chave de Washington na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que, ao lado do Canadá e da Austrália, se comprometeram a dar apoio militar se forem requisitados. O ministro do Exterior francês, Hubert Vedrine, considerou a ação militar "inevitável e necessária" depois que o Taleban recusou-se a entregar Bin Laden. Na Espanha, o porta-voz do governo, Pio Cabanillas, disse que suas Forças Armadas estão "totalmente prontas" para assumir um papel mais ativo se forem requisitadas. Cumprindo sua promessa de apoio, a Otan concordou em enviar cinco aviões-radar AWACS e tripulação para os Estados Unidos, a fim de liberar aviões de reconhecimento americanos para serem usados na campanha contra a rede de Bin Laden. "Não existe falta de entusiasmo com essa campanha", afirmou o secretário-geral da Otan, George Robertson. O papa João Paulo II ofereceu uma prece à paz. O pontífice disse a uma multidão na Praça de São Pedro, em Roma, que queria "dividir com vocês, e transmitir a Deus, a aflição e preocupação que nos tomam neste delicado momento da vida internacional". O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que os ataques contra o Afeganistão eram justificáveis depois da morte de milhares de pessoas em 11 de setembro. "Tal colossal perda não pode passar despercebida ou deixar de ter uma resposta adequada", disse ele. Os ministros da UE pediram às Nações Unidas para instalar um governo democrático em Cabul e prometeram ampliar os laços econômicos e outros com os vizinhos do Afeganistão a fim de promover a estabilidade na Ásia Central. O povo afegão "merece um governo que seja verdadeiramente representativo e que corresponda às suas necessidades e aspirações", afirmaram os ministros num comunicado. O chefe da missão especial da ONU para o Afeganistão, Francesc Vendrell, disse que o Afeganistão necessita de um governo provisório "que seja formado por pessoas que não pertenceram ao Taleban". Mas em todo o Oriente Médio, muitas pessoas acusaram os EUA de usar dois pesos e duas medidas por desejarem punir os responsáveis pelos ataques terroristas em solo americano, mas ignorar o que dizem ser um outro tipo de terrorismo - as ações israelenses contra os palestinos. Em Gaza, a liderança palestina apressou-se hoje a se distanciar de Bin Laden, enquanto as forças policiais palestinas abriam fogo contra estudantes na Universidade Islâmica, na Cidade de Gaza, protestando contra a ação militar anglo-americana. Dois palestinos, de 13 e 21 anos, foram mortos e 45 ficaram feridos, informou a polícia, no pior confronto interno em muitos anos. Milhares de partidários do Taleban no Paquistão incendiaram prédios, enfrentaram a polícia e exigiram uma guerra santa contra os EUA. Dois escritórios da ONU no Paquistão foram depredados. Uma pessoa foi morta e 26 ficaram feridas na cidade de Quetta, sudoeste do Paquistão. Centenas de militantes islâmicos protestaram na frente da Embaixada dos EUA em Jacarta, Indonésia - a mais populosa nação islâmica do mundo - e ameaçaram ocidentais morando no país. Mohammed Kheir, um funcionário do governo sírio, disse que "a América está agindo contra Bin Laden sem nos mostrar provas, enquanto a evidência do que Israel está fazendo com os palestinos está na televisão para todos verem". O ministro da Informação libanês, Ghazi Aridi, fez declaração semelhante. "Os árabes estão perguntando, o que é terrorismo? Isso se aplica a Israel?" afirmou ele à Associated Press. "É direito dos árabes e muçulmanos levantarem a questão." O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, considerou que "o verdadeiro objetivo (dos EUA)é a dominação e o expansionismo". Khamenei acrescentou que Israel "tem diariamente por décadas cometido atos terroristas. Por que os Estados Unidos não têm qualquer reação em relação ao terrorismo sionista?" O governo do Sudão, que também é considerado pelo Departamento de Estado dos EUA como patrocinador do terrorismo, condenou "esta guerra contra o território afegão porque ela não será um meio viável para combater a violência e não vemos como ela possa ser justa e não tocar o povo inocente afegão". Estudantes sudaneses saíram às ruas em Cartum, gritando: "Longa vida a Bin Laden!" e "Abaixo a América". Estudantes também promoveram protestos em todo o Egito em concentrações em geral pequenas e pacíficas. Apesar das repetidas garantias do presidente dos EUA, George W. Bush, de que seu país não está promovendo uma guerra contra o mundo islâmico, muitos muçulmanos sentem que o verdadeiro alvo da campanha é sua fé. "Trata-se de um ato injustificado. É uma guerra religiosa contra os muçulmanos - o novo inimigo dos Estados Unidos", afirmou o empresário jordaniano Mohannad Attar, 38 anos, em Amã. "Está claro que essa guerra visa à renascença islâmica", disse Jamil Abu-Baker, porta-voz do maior grupo oposicionista da Jordânia, a Irmandade Muçulmana. "Assim como rejeitamos a morte de civis inocentes na América, nós condenamos a morte de civis inocentes no Afeganistão", acrescentou. Leia o especial

Agencia Estado,

08 Outubro 2001 | 15h26

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