Ataques surpreendem britânicos

Apesar de ninguém ter dúvidas de que eles viriam cedo ou tarde, os ataques contra o Afeganistão surpreenderam os britânicos. Ao longo dos últimos dias, as informações de Washington e do primeiro-ministro Tony Blair, indicavam a inevitabilidade de uma ação militar contra o Taleban, mas sinalizavam também que ela poderia ainda demorar algumas semanas. Havia a esperança, inclusive ressaltada pelos jornais ingleses neste fim de semana, de que o crescente isolamento dos governantes do Afeganistão poderia provocar a sua queda em breve, facilitando a ação militar e aliviando suas consequências. Mas alguns analistas tinham alertado que o retorno do primeiro-ministro Tony Blair ao país, após visitar a Rússia, Índia e o Paquistão, seria o sinal verde para o início dos bombardeios. Coincidência ou não, foi justamente isso o que ocorreu. E num domingo, sem causar maiores danos - pelo menos imediatos - no já combalido mercado financeiro internacional. Num típico dia de outono, um domingo com chuva e fortes ventos, os londrinos tomaram conhecimento do início da ação militar com a participação de forças britânicas no início da noite. A notícia não provocou comoção similar ao impacto de 11 de setembro, quando as cenas exibindo a destruição das torres gêmeas do World Trade Center e o Pentágono paralisaram o país no meio da tarde. A aparição de Osama bin Laden num vídeo, anunciando que o mundo islâmico estava sob ataque, parece ter chamado mais atenção do que os detalhes da operação militar. A partir de agora, segundo analistas, além da ação militar, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha terão que travar uma difícil batalha de propaganda, tentando convencer os islâmicos do mundo de que não se trata de uma guerra contra uma religião. Será justamente essa frente, a da propaganda, que poderá determinar se o atual conflito poderá se espalhar, acirrando os ânimos em outros países islâmicos, incitando novas ações terroristas e fragilizando ainda mais o precário cenário internacional. Desde os ataques terroristas contra os Estados Unidos, as medidas de segurança na Grã-Bretanha foram acionadas em seu nível máximo. O país é o principal aliado dos Estados Unidos e a posição assumida por Blair, de apoio irrestrito à ação para derrubar o Taleban - "o principal negociados dos Estados Unidos no cenário externo", segundo os jornais - colocam o país como principal alvo terrorista após os Estados Unidos, um temor que não é escondido pelas autoridades policiais do país. Aeroportos, prédios públicos, usinas nucleares e a área central da capital estão sob rigorosos esquemas de segurança. A Grã-Bretanha talvez seja o país europeu mais preparado para uma escalada terrorista, devido ao seu histórico com os movimentos radicais em torno da Irlanda do Norte, que causaram centenas de vítimas nas últimas décadas. Mas ao longo dos últimos anos, diante do cessar fogo de grupos paramilitares republicanos e legalistas, o temor de ataques terroristas havia declinado. Desde 11 de setembro, entretanto, isso mudou e a "paranóia da terror" voltou a predominar. Qualquer pacote, mala ou saco de supermercado desacompanhado num lugar público, principalmente no metrô, é visto é como uma bomba potencial e denunciado imediatamente. Muitas pessoas estão evitando beber água da torneira, temendo uma intoxicação intencional dos reservatórios. Para muita gente, a partir de agora, com o início dos ataques militares contra o Afeganistão, começa uma contagem regressiva para uma nova onda de ataques terroristas contra os Estados Unidos, Grã-Bretanha e qualquer país considerado inimigo por Bin Laden. Leia o especial

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