Até quando?

Alguns se perguntam se o radicalismo do premiê francês não beira o suicídio político

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2016 | 05h00

Até quando vai isso? A cada manhã, a crise social desencadeada há uns dois meses entra em nova metástase.

Começou pelos grandes clássicos franceses: insultos, desfiles, slogans. Depois, os estudantes entraram na dança, fazendo barulho e chiando contra a chamada “lei do trabalho” proposta pelo primeiro-ministro Manuel Valls para agilizar e oxigenar o mercado de emprego.

Há uma semana, a situação se radicalizou. Os sindicalistas da CGT assumiram o comando – e eles não são ginasianos de bons colégios. São da pesada. Sabem como se fazer ouvir. Com a greve nas refinarias de petróleo, milhões de motoristas de automóveis entraram em parafuso, correndo de posto em posto de combustível como esquilos enlouquecidos.

Outros setores em greve paralisam a vida cotidiana: controladores de voo, pilotos, trens, jornais... Um acompanhamento sonoro e em cores realça as manifestações. Toda noite se vê na TV um quebra-quebra entre manifestantes violentos e a tropa de choque da polícia, com pedras, canhões d’água e gás lacrimogêneo.

Em torno das refinarias, são queimadas montanhas de pneus, deixando o céu escuro em pleno dia. E agora também as usinas nucleares, fornecedoras de eletricidade, entraram em greve.

O conflito social tornou-se um duelo entre dois homens: o primeiro-ministro Valls e o secretário-geral da CGT, Philipe Martinez. No centro da disputa está a lei do trabalho, anunciada para remover a mordaça, as algemas e a burocracia que sufocam a economia francesa.

Mas essa lei foi de tal forma desfigurada pelas batalhas parlamentares que se esvaziou. A luta não é mais entre um socialismo arcaico e um moderno, mas uma briga de galo entre dois egos gigantescos: o do premiê e o do líder sindical. Os dois lutam pela sobrevivência.

Valls, se cair de joelhos, será massacrado. Perderá sem dúvida o belo cargo de primeiro-ministro. Do outro lado, é a própria CGT (o antigo grande sindicato de esquerda) que briga pela vida. De uns anos para cá, perdeu metade dos filiados. Se no fim tiver de se curvar ao poder, sofrerá um novo choque de velhice.

No governo, alguns se perguntam se o radicalismo do primeiro-ministro não beira o suicídio. Ministros lançam balões de ensaio. Como Valls não cai na conversa, procuram um jornalista e fazem confidências “off the record”: “A lei se esvaziou. Não seria melhor retirá-la antes que o país fique esgotado?”. Ou: “Coragem política não é afundar com o navio, mas mudar de rumo antes do naufrágio”.

O primeiro-ministro, porém, não abre a guarda. Quando um ministro sugere que seria melhor esquecer essa lei dolorosa, Valls vai ao rádio ou à televisão e finca pé. Cabeça quadrada, olhos pretos de toureiro, queixo erguido, ele ameaça. Irá até o fim. Não é homem de se curvar a sindicalistas. “Quem me procurar, vai me achar.”

O trabalho de um analista político não é fácil em meio a tal conflito. Melhor seria apelar para um crítico de teatro, um psicólogo ou um conselheiro sentimental do que para um Tocqueville, Raymond Aron ou Maquiavel. Ou, ainda melhor, jogar cara ou coroa.

E amanhã, qual será o programa? Fumaça preta no belo céu de primavera. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É correspondente em Paris

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