EFE/Centro de Informação de Alepo
EFE/Centro de Informação de Alepo

Até quando?

E nós sabemos sobre o que ocorre na Síria porque jovens sírios estão correndo riscos para registrar as imagens que assistimos do conforto de nossas casas

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2016 | 05h00

Até quando? Esta é uma pergunta recorrente para a qual nem mesmo os que vivem de perto a guerra na Síria têm respostas. “Quando a comunidade internacional vai acreditar que o regime de (Bashar) Assad e os caças russos matam crianças sírias todos os dias?”, pergunta Mahmoud Raslan, o fotógrafo responsável pela imagem do menino sírio com o rosto e o corpo cobertos por sangue e poeira, que percorreu o mundo esta semana. Raslan é também de Alepo, a cidade dividida em territórios inimigos e destruída pela guerra. “Eu chorava enquanto estava filmando”, relatou, em conversa com K.S., journalista e escritor sírio refugiado na Suécia desde 2014.

A imagem foi registrada dentro de uma ambulância, após Omran Daqneesh ser resgatado dos escombros de sua casa, no bairro de Al-Qatergui, atingido por bombardeios que deixaram dezenas de mortos na noite de quarta-feira. Na cena, o menino está sentado imóvel, ereto, os pés pequenos no ar, com um olhar ao mesmo tempo de ansiedade e resignação – ele podia estar sentado na mesma posição em um banco escolar, no primeiro dia de aula, o que torna a imagem ainda mais impactante. Mas está coberto por fragmentos de uma explosão.

Do refúgio na Suécia, K.S. viu a imagem em seu celular quando se preparava para dormir. “Seus olhos me diziam que não era minha culpa. Mas eu me senti envergonhado ao deitar em minha cama quente na Europa, onde encontrei santuário, por não poder limpar seu rosto ou abraçá-lo”, escreveu na New Statesman. “Eu era como a comunidade internacional: preocupado e triste, mas distante e inútil.”

K.S. conectou-se à internet e procurou por Raslan. O fotógrafo sírio contou-lhe que os aviões bombardearam Al-Qatergui por volta de 7h15. Raslan, que coordena o Centro de Media Nour, um coletivo de jovens e ativistas antigoverno de Alepo, seguiu rapidamente para a área. “Um carro quase colidiu com o meu e quebrou minhas costelas”, ele escreveu, terminando a frase com o emoji de um sorriso. Após algum silêncio, adicionou: “Eu chorava enquanto estava filmando, especialmente porque me tornei pai de uma menina há apenas sete dias.”

Esse roteiro de horror envolve três personagens negligenciados: crianças, refugiados e jovens cercados pelo conflito, que se arriscam para registrar os horrores da guerra e, assim, comover a comunidade internacional, “distante e inútil”.

Até quando? Flagrado na imagem que percorreu o mundo, Omran estava entre 12 crianças que chegaram à emergência vítimas do mesmo bombardeio – ataques similares, indiscriminados e contra áreas civis, atingiram Alepo a cada 17 horas, em média, nas últimas duas semanas, com ao menos 327 mortos, um terço deles mulheres e crianças.

K.S., que usa apenas as iniciais porque sua família continua na Síria e ele teme represálias do governo, vive agora a angústia de assistir a tragédia à distância – como a comunidade internacional que há cinco anos assiste a tudo sem encontrar uma solução. Uma das hashtags que viralizou nas redes sociais esta semana, juntamente com a foto de Omran diz #wecantsaywedidntknow (não podemos dizer que não sabíamos).

E nós sabemos sobre o que ocorre na Síria porque jovens sírios estão correndo riscos para registrar as imagens que assistimos do conforto de nossas casas. Antes do conflito, Raslan trabalhava em Alepo como padeiro. Refugiar-se exige recursos para pagar traficantes de pessoas e outros exploradores do sofrimento alheio, recursos que muitos sírios não têm. Sem trabalho, ele passou a fotografar mortos para viver.

Puxado pelos números na Síria, 2016 já é um dos anos mais violentos para jornalistas. A morte de correspondentes estrangeiros costuma ganhar repercussão mundial, mas 89% dos jornalistas mortos são locais. Jovens sem a opção de deixar o país, ao mesmo tempo testemunhas e vítimas da guerra.

Quando a imagem de Omran chegou às telas de computadores nos jornais do Ocidente, como a de Aylan Kurdi – o menino sírio morto em um naufrágio e encontrado em uma praia da Turquia – editores e repórteres tentavam buscar mais informações sobre o menino e sua família, mas já havia muitos outros Omrans vítimas de novos bombardeios, como houve muitos outros Aylans, registrados em imagens de mais um dia comum para os sírios. Aos líderes de todo o mundo que se reunirão no próximo mês para mais uma Assembleia-Geral da ONU, é preciso exigir que respondam: até quando? 

ADRIANA CARRANCA. ESCREVE AOS SÁBADOS 

Twitter: @AdrianaCarranca

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