Até quando o país ficará empacado no atoleiro afegão?

Há anos o povo americano se pergunta quando acabará a guerra no Afeganistão. Na terça-feira, o presidente Barack Obama anunciou que levará pelo menos mais dois anos e meio. Ele reafirmou o compromisso de começar a retirar os últimos 32 mil soldados do país no fim do ano, a um ritmo que tem sido muito lento desde o início. Mas não se deve achar que será o fim do envolvimento americano no atoleiro afegão. Depois de meses de hesitações, Obama anunciou também que pretende manter no país uma força residual depois de 2014. Permaneceriam no Afeganistão 9.800 soldados e, até o final de 2015, esse número será reduzido pela metade. Até o final de 2016, a força sofrerá novos cortes, de forma a manter um contingente adequado de soldados para proteger a embaixada em Cabul e ajudar os afegãos com equipamentos militares e em outras questões de segurança.

ANÁLISE: The New York Times*, O Estado de S. Paulo

28 Maio 2014 | 23h31

É razoável perguntar por que mais dois anos de uma presença considerável de tropas americanas - que, segundo um funcionário, custará US$ 20 bilhões em 2015. Obama insiste que sua finalidade se limitará à utilização das Forças de Operações Especiais para acabar com a ameaça representada pela Al-Qaeda e para treinar e assessorar o pessoal de segurança do Afeganistão.

Funcionários do governo afirmam que uma presença militar americana contínua, ainda que muito menor, constituirá uma ponte estabilizadora no momento delicado em que o país está escolhendo um novo líder para substituir o presidente Hamid Karzai. Há também dúvidas quanto ao montante que o Congresso e a comunidade internacional estarão dispostos a investir no país quando as tropas americanas e um contingente muito menor de forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não mais estiverem no país.

As eleições são motivo de certo otimismo em relação ao Afeganistão, que tem sido prejudicado por governantes ineptos e corruptos. Os dois principais candidatos à sucessão de Karzai - Abdullah Abdullah, ex-ministro do Exterior, e Ashraf Ghani, ex-funcionário do Banco Mundial - são considerados competentes, favoráveis ao Ocidente e estáveis. Tanto Abdullah quanto Ghani também disseram que assinarão o acordo bilateral de segurança que Karzai se recusou a firmar e, segundo Obama, é um pré-requisito para manter a presença das tropas.

O governo afirma que também foi encorajado pela evolução do preparo das forças de segurança afegãs, criadas pelos EUA e pela Otan, treinadas na década passada. Notícias recentes sugerem que as forças contribuíram para o resultado razoavelmente pacífico do primeiro turno das eleições presidenciais, em abril. Mais de 350 mil militares e unidades da polícia foram destacados para o pleito. Mas posteriormente foi noticiado que a imprensa afegã atenuou a incidência de atos de violência.

O Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu em média 9,4% ao ano, de 2003 a 2012, e a expectativa de vida aumentou mais de 20 anos para 62. Entretanto, os EUA continuam enredados no país, pondo em risco os seus jovens soldados. Foram necessários mais de dois anos para Obama retirar a maior parte das tropas do Afeganistão; agora, quer deixar mais forças naquele país até o final de 2016. A promessa de acabar com a guerra que fez anos atrás só será cumprida quando ele não estiver mais na presidência.

Tradução de Anna Capovilla

* Editorial publicado na edição de quarta-feira, 28, do jornal ‘The New York Times’

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