Atentado após a eleição mata dois mexicanos

Ataque, o terceiro contra alvos estatais em 40 dias, atingiu guardas no Estado de Tamaulipas, um dos mais violentos do país

RODRIGO CAVALHEIRO , ENVIADO ESPECIAL , CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2012 | 03h02

O terceiro atentado com carro-bomba no México contra alvos estatais em 40 dias matou 2 guardas de segurança ontem em Victoria, no Estado de Tamaulipas. Eles vigiavam a casa do secretário de Segurança, Rafael Lomelí Martínez, que escapou do ataque. A ação deixou ainda sete feridos e, aparentemente, teve como objetivo espalhar o terror no país, dois dias depois da eleição que sacramentou a vitória do candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI), Enrique Peña Nieto.

Na sexta-feira, um automóvel explodiu na frente da prefeitura de Nuevo Laredo, no mesmo Estado, ferindo 11 pessoas.

Em 24 de maio, também em Nuevo Laredo, um carro foi detonado na frente de um hotel alugado pelo governo para hospedar soldados. Sete deles se feriram. Horas antes, homens com coquetéis molotov haviam incendiado a discoteca Maranhao, a principal da cidade. A onda de violência em Tamaulipas tem sido atribuída à guerra aberta entre os dois principais cartéis do país, Los Zetas e o de Sinaloa, representado por seu braço local, o Cartel do Golfo. Eles disputam uma das principais rotas terrestres de drogas para os Estados Unidos, tradicionalmente dominada pelos Zetas.

Esse cartel, diz o especialista em segurança Alejandro Hope, tem apenas outro ponto de travessia sob seu domínio, Piedras Negras, no Estado vizinho de Coahuila. "Se perderem Nuevo Laredo, todo o negócio fica comprometido", diz Hope. "Ataques como esse não são feitos para produzir muitas vítimas. O objetivo principal é intimidar - neste caso, o secretário de Segurança. Provavelmente, um dos cartéis acredita que ele está trabalhando para o grupo rival", completa Hope.

O Cartel de Sinaloa parece estar ganhando a disputa, em parte, por causa do apoio popular. No domingo, dia das eleições, moradores de Nuevo Laredo disseram ao Estado que Los Zetas são impopulares por terem um perfil mais violento e praticar extorsões. "Eles matam imigrantes, os penduram numa ponte qualquer e dizem que os culpados foram os traficantes rivais, para mostrar poder. Além disso, o cartel de Chapo (Guzmán, líder do grupo de Sinaloa) deixa as pessoas trabalharem, não exige dinheiro", afirmou um motorista que pediu anonimato.

Vários cassinos e discotecas estão fechados na cidade por "inadimplência" com os traficantes. A experiência dos moradores é confirmada por especialistas como Hope, que identificam em Chapo Guzmán "uma visão mais empresarial do negócio".

"Explodir um carro não é o mesmo que executar uma pessoa. Tem muito mais impacto, provoca mais medo. É uma resposta ao aumento do poder dos ataques que recebem do Estado, querem mostrar que não ficam atrás. Precisamos ver o exemplo da Colômbia, onde o nível dos ataques foi subindo até colocarem quantidades impressionantes de explosivos. Os traficantes querem, sobretudo, mostrar capacidade técnica de fazê-lo", declarou ao Estado o especialista em segurança da Universidade Nacional do México, René Jiménez Ornelas.

Chororô. O novo ataque do narcotráfico desviou momentaneamente as atenções dos mexicanos de temas eleitorais, em um dia em que as manchetes dos jornais locais abordaram a nova negativa do candidato do Partido da Revolução Democrática (PRD), Manuel López Obrador, de esquerda, de reconhecer a derrota, desta vez para Peña Nieto, Em 2006, López Obrador perdeu por 0,56% para o presidente Felipe Calderón, do Partido Ação Nacional (PAN).

"É uma vergonha nacional a maneira como atuaram os patrocinadores e dirigentes do PRI e a maneira como atuou, de forma totalmente imoral Enrique Peña Nieto", disse López Obrador. Sua assessoria acrescentou que pretende pedir a recontagem dos votos de 143,132 mesas. A Justiça Eleitoral antecipou que acatará o pedido de recontagem de mesas nas quais a diferença entre os dois primeiros colocados foi de 1 ponto porcentual ou menos - o que representa um terço do total. Especialistas avaliam que a iniciativa não terá consequência prática, até em virtude da diferença de 6 pontos porcentuais - 3,3 milhões de votos. O resultado da votação será anunciado oficialmente hoje e Peña Nieto, declarado vencedor.

A iniciativa de López Obrador é interpretada como uma resposta a seus eleitores, concentrados principalmente no Distrito Federal, onde ele governou entre 2000 e 2005. "Tudo pode acontecer (em 2018), mas ele tem um caminho muito difícil. Há outros líderes exigindo espaço", avalia o cientista político Sergio Aguayo. "Ele quer expor a mediocridade de nossa democracia. Está pensando também na história", completa Aguayo.

Num editorial, a revista americana New Yorker publicou que a vitória do PRI, que governou o país por 71 anos, entre 1929 e 2000, mostra que os mexicanos "devem estar desesperados". Em um país em que o voto não é obrigatório, a eleição teve participação de 63%.

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