Atentado contra ex-ministro colombiano expõe cisão entre Santos e Uribe

Ex-presidente faz duras críticas à política de segurança do governo atual e, segundo analistas, pode construir um novo movimento político.

Leandra Felipe, BBC

19 Maio 2012 | 18h22

Um atentado na última terça-feira em Bogotá evidenciou a ruptura entre o atual presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e seu antecessor, Álvaro Uribe.

O ataque a um ônibus, que teve como alvo o ex-ministro do Interior e Justiça da Colômbia, Fernando Londoño, matou duas pessoas e deixou mais de 50 feridos, entre eles o próprio Londoño.

Embora formalmente Uribe faça parte da base do governo de Santos, para analistas ouvidos pela BBC Brasil os dois políticos "já estão em caminhos diferentes", com suas divergências pessoais e políticas cada vez mais visíveis.

Uribe responsabilizou o governo de Santos pelo ataque da terça-feira, que ele atribuiu ao que chamou de "fragilidade" na condução da política de segurança.

O ex-presidente criticou a proposta do atual governo de viabilizar uma saída negociada pela paz com as Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc). "Enquanto Bogotá está banhada em sangue, o governo pressiona os congressistas a aprovar o marco jurídico para a paz", disse.

No dia do atentado, a Câmara de Deputados estava analisando um projeto de lei que permite que o governo de Santos dê início a um processo de paz na Colômbia, alternativa totalmente rejeitada por Uribe, que defende a ideia de enfrentar a guerrilha sem reconhecer nas Farc seu caráter insurgente.

Apesar das críticas do ex-presidente, o projeto foi aprovado com ampla maioria na Câmara e agora segue para dois debates no Senado.

Depois da aprovação, o Juan Manuel Santos também endureceu o discurso, comparando resultados de sua política de segurança com a do governo de Uribe.

"No governo anterior, tínhamos estes atos terroristas quase toda semana. Mesmo assim, recebemos o apoio da população colombiana, e sempre nos mantivemos no mesmo rumo, porque tínhamos objetivos", lembrou Santos.

Na última sexta-feira, o presidente afirmou que ainda não se sabe quem são os responsáveis pela explosão do ônibus de Londoño.

Guerra via Twitter

Uribe e Santos têm dado vários sinais de separação desde o ano passado, quando o presidente reconheceu o conflito armado colombiano, ao aprovar a Lei de Vítimas e Reparação. Desde então, seu antecessor faz críticas cada vez mais fortes ao atual governo.

"Uribe condena tudo o que presidente faz: as promessas de Santos de acabar com a pobreza, o projeto de casas populares, e o chama de gastador e demagogo", comenta o cientista político Ricardo García.

A reação de Uribe à explosão no ônibus evidenciou sua consolidação como oposição ao governo, direcionando críticas diárias a Santos nos meios de comunicação e em seu Twitter.

De acordo com os analistas, o presidente, que inicialmente ignorou as críticas, deve reagir mais na medida em que as provocações forem mais fortes.

"Santos dizia que não se importava com a opinião de Uribe. Mas neste episódio do atentado ele foi mais ofensivo no contra-ataque", avalia o professor de Ciências Políticas da Universidade de Antioquia, Jorge Andrés Hernández.

Elites diferentes

A "briga" expõe também as diferenças pessoais entre os dois políticos.

"Uribe é o político carismático, capaz de arrebanhar multidões. Ele é extremamente religioso, cercado de católicos e evangélicos, e em seu governo estimulou a ideia nacionalista e uma postura quase messiânica", conta Andrés.

O presidente Santos também tem raízes na elite, só que na tradicional aristocracia urbana de Bogotá. A família dele foi proprietária do maior jornal diário colombiano, o El Tiempo. Seu tio-avô Eduardo Santos foi presidente do país entre 1938 e 1942.

"A diferença é que ele é mais ligado às forças empresariais urbanas. Sua família sempre participou da vida política, das grandes decisões", analisa Hernández.

Santos é conhecido por ser politicamente pragmático. "Ele chega a ser oportunista e representa a política de centro, que muda de acordo com os ventos."

A pressão do ex-presidente está fazendo com que o atual se antecipe para trabalhar pela reeleição, de acordo com García e Hernández.

Uribe não pode mais ser eleito, porque a lei colombiana só permite uma reeleição consecutiva.

No entanto, os especialistas acreditam que uma alternativa possível para ele seria a criação de um movimento novo, desvinculado do Partido Social de Unidade Nacional (de La U), legenda que ele mesmo ajudou a criar e da qual também faz parte Juan Manuel Santos.

García diz que apesar do "barulho", Uribe está em desvantagem quanto a Santos, porque ele não tem a base e nem a "máquina" do governo a seu favor.

"Mesmo assim ele pode criar um movimento e conseguir aglutinar uma parte dos conservadores com ele. O uribismo perdeu força, mas Uribe é hábil suficiente, para, pelo menos, dificultar a vida de Santos", conclui. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.