AFP PHOTO / Omar haj kadour
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Atentado contra retirada de civis mata mais de 120 na Síria

Entre as vítimas da explosão contra os ônibus que retiravam os moradores de Fua e Kafraya estão pelo menos 68 crianças; atentado, que ainda não foi reivindicado por nenhum grupo, foi cometido com uma caminhonete-bomba

O Estado de S. Paulo

15 Abril 2017 | 11h24
Atualizado 16 Abril 2017 | 16h30

DAMASCO - Ao menos 126 sírios, incluindo 68 crianças, que estavam sendo retirados das localidades sitiadas e leais ao regime de Bashar Assad morreram e centenas ficaram feridos no atentado com uma caminhonete-bomba realizado no sábado contra um comboio de ônibus, um dos ataques mais violentos em mais de seis anos de guerra.

Um suicida explodiu sua caminhonete-bomba contra um comboio de ônibus que transportavam os habitantes retirados de Fua e Kafraya, localidades leais ao regime assediadas pelos rebeldes na Província de Idlib, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH).

Em seu tradicional "Urbi et Orbi" de Domingo de Páscoa, o papa Francisco denunciou um "vil ataque" e implorou a paz na Síria, país "martirizado" e vítima de uma guerra "que não para de semear horror e morte".

O ataque, que ainda não foi reivindicado, aconteceu em Rashidin, periferia rebelde a oeste de Alepo, onde o comboio foi bloqueado durante várias horas por desacordos entre as partes em conflito. Foi junto aos 75 ônibus parados em Rashidin que o suicida fez o carro-bomba explodir.

Havia pelo menos 68 crianças entre as 126 vítimas do atentado, informou neste domingo o OSDH, alertando que o balanço não para de aumentar, pela quantidade de feridos em estado grave. A maioria dos mortos eram moradores de Fua e Kafraya. O restante são ajudantes e rebeldes que cuidavam dos ônibus.

"A morte te surpreende". Os ônibus atacados estavam carbonizados e, ao lado de uma cratera, uma caminhonete, provavelmente a utilizada no ataque, estava completamente destruída. "Houve uma enorme explosão", conta Mayssa Aswad, de 30 anos, que estava sentada em um ônibus com seu bebê de seis meses e sua filha de dez anos no momento do atentado.

"Ouvi gritos e choros (...) meu bebê Hadi chorava muito, minha filha Narjes me olhava, completamente paralisada", contou por telefone. "A morte pode te surpreender em alguns minutos", acrescentou. Poucas horas depois do ataque, os comboios de pessoas retiradas retomaram o caminho para chegar a seu destino final.

O regime sírio acusou pelo atentado os "grupos terroristas", termo utilizado pelo governo para designar rebeldes e extremistas. Mas o influente grupo rebelde Ahrar al Sham negou qualquer envolvimento com o atentado.

O secretário-geral adjunto de assuntos humanitários e coordenador dos serviços de emergência da ONU, Stephen O'Brien, disse estar "horrorizado" por este ataque "monstruoso e covarde". Seus autores "demonstraram uma descarada indiferença pela vida humana", ressaltou.

Retirada. A operação de retirada, que também abarca milhares de habitantes das localidades rebeldes de Madaya e Zabadani, perto de Damasco, começou na sexta-feira em virtude de um acordo alcançado entre o Catar, apoiador dos rebeldes, e o Irã, aliado do governo.

Mais de 7.000 pessoas foram retiradas na sexta-feira e no sábado das quatro localidades. Cerca de 5.000 pessoas de Fua e Kafraya - civis e combatentes - chegaram a Alep, onde escolherão seu destino final. Os 2.200 retirados de Madaya e Zabadani chegaram a Idlib, controlada em sua maioria pelos rebeldes.

Não estava claro se a operação de retirada que deveria destinar-se a milhares de pessoas continuará de forma imediata.

Nos últimos anos, e depois de meses de tentativas, o governo propôs acordos de retirada similares, que a oposição denuncia como "transferências forçadas", consideradas "crimes contra a humanidade".

Em outras áreas do país em guerra, o grupo extremista Estado Islâmico (EI) tentava neste domingo frear uma ofensiva de combatentes curdos e árabes apoiados pelos Estados Unidos, que buscavam apoderar-se de Tabqa no norte.

Tabqa é um passo-chave no caminho para Raqqa, capital autoproclamada do grupo EI na Síria e verdadeiro objetivo das Forças Democráticas Sírias (FDS), aliança de combatentes curdos e árabes.

Desencadeado em março de 2011 pela violenta repressão das manifestações que pediam reformas, o conflito sírio já deixou mais de 320.000 mortos e milhões de deslocados e refugiados, e foi complicado com a entrada em cena de atores internacionais e grupos extremistas. / AFP, EFE e REUTERS

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