Atentado em Bagdá marca nova fase na guerra no Iraque

A carnificina em Bagdá ameaça agravar ao máximo, a um ponto incontrolável, o caos iraquiano. Além dasmortes, entre elas a de Sérgio Vieira de Melo, a explosão assassina de Bagdá anuncia que a "guerra" do Iraque mudou de natureza.Há alguns dias, não estamos mais em presença de golpes de desespero, de atos de vingança e de loucura isolados earriscados. De agora em diante, trata-se de uma guerra total programada, que obedece a uma estratégia precisa, global,concebida por um Estado-Maior clandestino.O ataque confirma, além disso, que os "resistentes" dispõem depoderosos meios, tanto em homens quanto em material (camicases,guerreiros experientes e armas).O mais insólito, e igualmente o mais estarrecedor, é o alvo que os "resistentes" escolheram. Eles atacaram não os soldados da coalizão que fizeram guerra contra eles, mas os soldados da paz, a ONU, ou seja, a organização internacional que, num primeiro momento, tentou impedir as hostilidades e que hoje tenta tirar o Iraque do horror em que vive.Todos sabem que as relações in loco entre a AutoridadeProvisória da Coalizão, ou CPA, e os representantes da ONU são tensas, nervosas, conflitantes. Exatamente antes do verão, uma missão liderada por Sérgio Vieira de Melo e composta por dois homens da paz - os especialistas do Banco Mundial Nick Krafft e Faris Hadad-Zervos - tiveram toda a dificuldade do mundo para obter da CPA o "sinal verde" para viajar de avião de Amã para Bagdá.Os representantes da CPA disseram aos homens da paz: "A CPA não quer ser inundada de ´missionários´". Ora, é exatamente contra estes "missionários" que os"combatentes da sombra" se lançaram, contra os que trabalham em favor da paz. E aqui não se trata de um erro de alvo mas, ao contrário, de uma vontade muito determinada e muito perversa.O ataque contra a ONU constitui a seqüência coerente de ações precedentes, igualmente sanguinárias e ilógicas à primeira vista: estourar a canalização de água para matar de sede da população de Bagdá; atear fogo aos oleodutos através dos quais o povo iraquiano poderia enfim restaurar suas ruínas. Nos três casos (água, petróleo e ONU), o objetivo é o mesmo: fazer o Iraque rolar para o abismo.Este é um método caro às revoltas mais extremistas: a política do ?quanto pior, melhor" (outrora, durante as guerras, falava-se da "tática de terraarrasada?, que consistia na destruição de tudo, incluindo amigose inimigos...).A ONU faz um esforço digno de louvor para abrir para o Iraque o caminho da paz, da democratização e da independência. Ela é favorável a este Conselho de Governo interino que se conseguiu formar a duras penas. Há alguns dias, Sergio Vieira de Mello havia dito que o conselho constituía um grande passo à frente, que ele detinha poderes políticos para encaminhar o país rumo à independência e ao fim da ocupação.A tarefa do conselho é a de formar um governo provisório, elaborar uma Constituição e submetê-la a um plebiscito. Depois disso, poderiam ser organizadas eleições dentro do prazo de um ano e, portanto, um retorno à normalidade, segundo Sérgio de Mello.Hoje, viemos a saber que os "extremistas" não querem esse retorno à normalidade. Eles preferem a tragédia.

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