Sergio Perez/Reuters
Sergio Perez/Reuters

Atentado em Madri colocou Europa na rota do terrorismo

Discursos xenófobos e levantes em países árabes marcam a imagem do mundo muçulmano na Espanha

Christina Stephano de Queiroz, especial para o estadão.com.br,

10 Setembro 2011 | 18h17

ESPECIAL: Dez Anos do 11 de Setembro

 

MADRI - Em 11 de março de 2004, o atentado na estação de trens de Atocha, em Madri, colocou a Europa na rota do terrorismo, mudou o rumo das eleições na Espanha e deixou em evidência um dos aspectos mais negativos associados ao islã.

 

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Passados sete anos e meio, a relação da Espanha com o mundo muçulmano está pautada, entre outros fatores, pela imigração e pela crescente presença de partidos xenófobos, tendência que ganha força conforme a crise financeira se agrava e o desemprego aumenta. Por outro lado, os recentes levantes em países como Egito e Tunísia motivam o surgimento de novas imagens associadas ao islã.

 

Esta é a opinião de Bernabé López García, catedrático de história do Islã contemporâneo da Universidad Autónoma de Madri, ao lembrar que o trauma do atentado ainda não foi superado, porém se situou em seu ponto de distância no tempo.

 

Para ele, os recentes levantes no mundo árabe ajudam a tirar de cena "uma corrente de publicidade que tanto insiste em associar Islã com terrorismo". García afirma que, agora, a imprensa mostra também outra realidade, mais positiva e próxima ao mundo ocidental.

 

'Publicidade culpabilizadora'

 

Mesmo sendo um fato marcante na memória dos espanhóis, o professor acha que o atentado não provocou um aumento da fobia contra os marroquinos, origem de alguns dos culpados pela tragédia. Porém, se de um lado o 11 de Março não mudou a relação da Espanha com o mundo muçulmano, os atentados em Nova York sim transformaram. Isso porque o 11 de Setembro marcou o início dessa "publicidade culpabilizadora de todo o Islã", algo que na Espanha recaiu principalmente sobre o marroquino.

 

"Até então, mesmo chamados negativamente de 'mouros', imigrantes do Marrocos eram vistos como trabalhadores. Após o 11 de Setembro, passaram a ser estigmatizados", diz. Mònica Rius, diretora do curso de mestrado Mundo Árabe e Islâmico na Universidad de Barcelona, concorda com García. Para ela, o atentado em Madri não mudou as relações da Espanha com o mundo árabe e muçulmano. "De forma geral, se entendeu que foi o ato de uma minoria radical", diz ela.

 

Impacto político

 

Ambos os especialistas concordam que o grande impacto do 11 de Março tenha sido a mudança no rumo das eleições gerais, que ocorreriam três dias depois. As pesquisas apontavam que o Partido Popular (PP) de José María Aznar, no poder havia oito anos, ganharia a disputa. Porém, uma manobra política que procurou relacionar o atentado com o ETA (organização que luta em favor da independência do País Vasco) fez com que José Luis Rodríguez Zapatero (do Partido dos Trabalhadores Socialistas Espanhol - PSOE) vencesse as eleições.

 

Isso porque, mesmo diante de informações oficiais que garantiam que os autores eram extremistas islâmicos, o PP insistiu em culpar o ETA, por acreditar que os muçulmanos "não tinham capacidade intelectual para organizá-lo", nas palavras de Mariano Rajoy, vice-presidente e candidato à presidência à época.

 

Depois de 11 de Março, os dois partidos passaram a usar a imigração em seus discursos políticos. "Assim, enquanto o PP falou de endurecer as leis para estrangeiros, o PSOE enfatizou a necessidade de aumentar o diálogo de civilizações", afirma Mònica. A especialista garante ainda que, hoje, setores da população que associam Islã com atos terroristas também atribuem um caráter negativo à imigração, principalmente no que diz se refere ao mercado de trabalho.

 

Ela não considera o medo ao terrorismo um problema importante na Espanha e sim o aumento da xenofobia, que ganha força conforme a crise econômica se agrava.

 

Na mira da violência

 

Outro impacto importante relacionado ao 11 de Março, na visão de Henrique Cymerman, jornalista especializado em Oriente Médio e correspondente na região do jornal espanhol La Vanguardia, foi fazer a Europa entender que também é alvo do terrorismo. "Cerca de 30 milhões de muçulmanos vivem no continente e 2 milhões na Espanha, sendo muitos deles pacíficos. Porém, alguns milhares estão organizados em células terroristas", afirma o jornalista.

 

E apesar das diferentes argumentações que defendem que o terrorismo não é um problema relevante na Espanha, Cymerman garante que os terroristas da jihad mundial passam por uma etapa perigosa e podem, a qualquer momento, organizar um ataque com armas químicas ou biológicas.

 

"Afirmo isso com base em informações divulgadas em um evento que reuniu 800 especialistas em segurança de todo o mundo em Israel", diz. Ele aconselha as autoridades de todos os países a fortalecerem as estratégias de segurança, de forma a desmantelar as redes já formadas, porém com o cuidado de não empregar táticas que violem os direitos humanos, como é o caso da tortura.

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