Atentado em show em Manchester traz à tona temor antigo

Atentado em show em Manchester traz à tona temor antigo

Planejamento antiterrorismo no Reino Unido tem foco exacerbado em Londres, dizem analistas

Rick Noack / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2017 | 05h00

Londres sempre foi vista como alvo do próximo ataque terrorista pelas agências de segurança britânicas. Durante anos, a capital de 8 milhões de habitantes viveu com medo e preparou-se para um grande atentado. Mas eis que, na noite de segunda-feira, um homem-bomba explodiu-se num show de Ariana Grande em Manchester, a 320 quilômetros da capital, que se tornou alvo do pior atentado suicida na Grã-Bretanha desde os ataques a ônibus e a metrô de Londres em 2005. Estaria Manchester - e o restante do país - despreparada?

É o que críticos, dentro e fora do aparato de segurança britânico, discutem há um bom tempo. Eles dizem que se deu muita ênfase à proteção de Londres e pouca em se manter seguras outras grandes cidades, como Manchester, de 500 mil habitantes. Apesar dos esforços em descentralizar operações de contraterrorismo, muito do aparato de segurança do país continua voltado para Londres, onde unidades especiais ficam de prontidão 24 horas por dia, 7 dias da semana, e as autoridades podem contar com uma ampla vigilância eletrônica para reagir rapidamente. 

Em todo o restante da Grã-Bretanha, associações policiais queixam-se da falta de recursos e dizem estar preocupadas com a sensação de possíveis ataques terroristas não serem levados a sério. Ao contrário do que ocorre em muitos outros países ocidentais, a maioria dos policiais britânicos não carrega armas de fogo. A antiga tradição começou a sofrer cada vez mais críticas, em meio a contínuas ameaças terroristas, e mais policiais vêm sendo treinados no uso de armas. Sobretudo em áreas esparsamente povoadas, esse treinamento é lento e os poucos policiais armados disponíveis provavelmente chegariam tarde demais à cena de um atentado.

Para outros críticos, o problema tem raízes mais profundas. O programa Prevent, contra a radicalização, já deixou muita gente frustrada em cidades como Manchester por concentrar-se no que, segundo seus críticos, resume-se ao acompanhamento e vigilância de muçulmanos. O programa busca identificar jovens com tendências à radicalização e afastá-los da ideia por meio de aconselhamento e apoio social. 

Em algumas cidades, as falhas dos programas contra a radicalização têm sido mais óbvias que em outras. Em certos casos as críticas vêm das próprias autoridades.

Em 2015, o chefe de polícia da Grande Manchester, Peter Fahy, criticou duramente os planos do então primeiro-ministro, David Cameron, e da então secretária do Interior, Theresa May, de fechar mesquitas e cortar o financiamento para associações de caridade acusadas de colaborar com possíveis extremistas, entre outras medidas.

“Isso fará com que o público fique desconfortável se sentir que sua liberdade de expressão, de religião e seu direito de protestar estão sendo reduzidos”, disse. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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