Atentado mata 8 em Beirute e guerra civil da Síria se aproxima do Líbano

A explosão de um carro-bomba em um bairro cristão de Beirute matou ontem oito pessoas, entre elas Wissam al-Hassan, chefe do serviço de inteligência do Líbano, que teve papel importante nas investigações que implicaram o governo da Síria e o Hezbollah no assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri, há sete anos.

BEIRUTE, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2012 | 03h02

Al-Hassan era um aliado próximo de Hariri, que foi morto em um ataque a bomba semelhante no centro de Beirute, em 2005. Recentemente, ele revelou os planos de um atentado que levou à prisão de Michel Samaha, ex-ministro e um conhecido político pró-Síria.

O ataque de ontem ocorreu em um momento de crescente tensão entre facções libanesas em lados opostos do conflito na vizinha Síria e aumentou o temor de que a guerra civil síria chegue ao Líbano.

A explosão ocorreu na hora do rush, quando muitos pais pegavam os filhos na escola, e provocou uma coluna de fumaça negra no céu. O carro-bomba atravessou a rua onde fica o escritório do partido anti-Síria Falange Cristã, perto da Praça Sassine, em Ashrafiyeh, área de maioria cristã e um dos bairros mais charmosos da capital libanesa.

Vários carros e prédios foram destruídos. Segundo autoridades de defesa civil, cerca de 80 pessoas ficaram feridas. Logo após a explosão, moradores corriam em pânico procurando por parentes, enquanto outros ajudavam a carregar os feridos para ambulâncias.

Tensão sectária. Saad Hariri, ex-premiê libanês, filho de Rafic e inimigo aberto de Assad, acusou o presidente sírio, Bashar Assad, de orquestrar o ataque. O líder da Falange Cristã, Sami Gemayel, também adversário ferrenho de Assad, e membro do Parlamento libanês, condenou o atentado.

"Deixe o Estado proteger os cidadãos. Nós não vamos aceitar qualquer procrastinação nessa questão. Não podemos continuar assim. Estamos alertando há um ano. Chega", disse Gemayel, cujo irmão foi assassinado em novembro de 2006.

A guerra civil na Síria, que já matou mais de 30 mil pessoas nos últimos 19 meses, tem colocado insurgentes sunitas contra Assad, que é alauita, seita ligada ao xiismo. Comunidades religiosas do Líbano estão divididas entre as que apoiam Assad e as que defendem os rebeldes sírios que tentam derrubá-lo.

O primeiro-ministro libanês, Najib Mikati, afirmou, em comunicado, que seu governo descobrirá quem realizou o ataque e os criminosos serão punidos. Tanto a Síria quanto o Hezbollah, entretanto, negaram participação no atentado que matou Al-Hassan.

Acusações. "Esse crime odioso é uma tentativa de desestabilizar o país e de minar a unidade nacional. O Hezbollah exige que as forças de segurança e o Judiciário descubra e puna os responsáveis", afirmou o grupo, em nota.

Ontem, em Damasco, o ministro de Informação da Síria, Omran al-Zoabie, condenou o atentado. "Condenamos essa explosão terrorista e todas as explosões onde quer que elas ocorram. Nada as justifica."

A perspectiva de que os conflitos na Síria se espalhem para o Líbano preocupam muitas autoridades locais e diplomatas estrangeiros. Confrontos entre defensores e opositores de Assad já foram registrados na cidade de Trípoli, no norte do Líbano, em fevereiro.

A Síria também já desempenhou um papel importante na política libanesa, fazendo parceria com diferentes facções durante a guerra civil, entre 1975 e 1990. O país enviou tropas a Beirute e a outras partes do país durante o período e permaneceu como força de ocupação até 2005.

A tensão entre sunitas, xiitas e cristãos no Líbano nunca se dissipou completamente e tem aumentado rapidamente desde que o conflito começou na Síria, em março do ano passado. / REUTERS, NYT, AFP e AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.