Atentado mata deputado anti-Síria em Beirute às vésperas de eleições

O cristão Antoine Ghanem é o sétimo político crítico de Damasco morto desde 2005; governo sírio nega envolvimento

Gustavo Chacra, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 00h00

Damasco - Mais uma vez em Beirute. Mais uma vez um carro-bomba. E mais uma vez a vítima foi um crítico da Síria que integrava a coalizão governista 14 de Março. O alvo do atentado de ontem foi o parlamentar Antoine Ghanem, membro da Falange, um antigo partido radical cristão maronita que ultimamente se tornou mais moderado. Outras 7 pessoas morreram e cerca de 30 ficaram feridas.Como em um filme já visto muitas vezes, o governo dos EUA acusou a Síria. Políticos governistas em Beirute, entre eles o deputado Saad Hariri, ecoaram as declarações de Washington. O regime de Damasco negou envolvimento e condenou o ataque.A aparência similar, no entanto, esconde uma complicação extra em relação aos atentados anteriores: o de ontem ocorreu a menos de uma semana da data que marca o início do processo parlamentar para a escolha do futuro presidente do Líbano. O mandato do atual, Émile Lahoud, termina em 25 de novembro. A eleição está prevista para ocorrer na terça-feira. Mas a Constituição permite que o futuro presidente seja escolhido até 23 de novembro."(O atentado) é uma clara tentativa de desestabilizar o processo constitucional", afirmou o primeiro-ministro pró-ocidental Fuad Siniora. Ele pediu que a ONU ajude na investigação.Como todos os seus pares na 14 de Março, Ghanem sabia que corria o risco de ser vítima de um ataque terrorista. Seus aliados Pierre Gemayel, Walid Eido e Gibran Tueni, todos deputados, foram mortos em circunstâncias idênticas. Ao todo, já são sete os políticos anti-Síria mortos no Líbano desde 14 de fevereiro de 2005, quando foi assassinado o ex-premiê Rafic Hariri - pai de Saad. Precavido, Ghanem havia feito o mesmo que outras dezenas de figuras políticas libanesas. Buscara refúgio no exterior. Em parte por segurança, em parte para tratar de problemas de saúde. Ele voltou ao Líbano por causa das eleições da próxima semana. Chegou a esconder a placa do carro, que indica que se trata de um parlamentar. Mas não foi o suficiente para escapar do atentado num bairro cristão de Beirute no fim da tarde de ontem.Na capital libanesa, após o ataque, as pessoas correram para suas casas para acompanhar o noticiário. Todas as emissoras de televisão interromperam a programação para transmitir a cena da tragédia. Pelos celulares, libaneses telefonavam para parentes e amigos para saber se estavam bem. Por meio da internet, conversavam com pessoas no exterior. Simpatizantes da oposição e do governo brigavam em chats.Já em Damasco, as TVs locais não deram destaque ao atentado. Apenas a TV do grupo xiita libanês Hezbollah, a Al-Manar, transmitiu reportagens ao vivo sobre o ataque. Enquanto os libaneses falam em Síria o tempo todo, em Damasco o principal assunto ainda era a misteriosa ação israelense do início do mês (ler ao lado).DIVISÃO DE PODERMas a eleição libanesa tem enorme importância para a Síria. O cargo de presidente, um dos três mais importantes do Líbano, é destinado sempre a um cristão maronita. Um muçulmano sunita ocupa o posto de premiê. E o presidente do Parlamento tem de ser xiita. As outras 14 comunidades religiosas do Líbano dividem outros cargos. Na prática, a posição mais forte é a do primeiro-ministro. Por esse motivo, considera-se oposição todos que sejam contra Fuad Siniora, ou seja: Hezbollah, Amal e quase todos os xiitas, os cristãos seguidores do líder populista Michel Aun ou do presidente Lahoud, e uma parte pequena de sunitas e de drusos pró-Síria. Já os governistas, que são pró-EUA e pró-Arábia Saudita, contam com o líder sunita Saad Hariri, cerca da metade dos cristãos e a maioria dos drusos.O candidato da oposição é Michel Aun, ex-inimigo da Síria que viveu 15 anos no exílio. No seu retorno, ironicamente, ficou do lado dos aliados de Damasco. O governo tem vários candidatos. O mais forte é Nassib Lahoud (nenhuma relação com o atual presidente). O governo de Siniora quer que o presidente seja escolhido por maioria simples. No entanto, cada parlamentar morto é um voto a menos. Agora o governo conta com 68 das 128 cadeiras do Parlamento - apenas 3 a mais que o mínimo necessário para vencer votações. Nas últimas semanas, intensificaram-se as negociações para um nome de consenso. O mais forte é o do comandante das Forças Armadas, Michel Suleiman. Mas, se antes do atentado não havia acordo, agora fica ainda mais difícil. Se não houver solução até o fim de novembro, o Líbano pode acabar sem presidente ou com dois governos paralelos. Isso não seria novidade. Situação similar ocorreu em 1988. O resultado foi um dos períodos mais sangrentos da guerra civil. Como no Líbano a história sempre se repete, a preocupação em Beirute é grande.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.