Atentados aproximam Putin do Ocidente

Um que "joga com habilidade" desde a catástrofe nova-iorquina do dia 11 de setembro é o presidente russo, Vladimir Putin. Desde o início, percebeu-se que ele tinha vontade de entrar na coalizão formada por George W. Bush contra o terrorismo, mas foi ambíguo, hesitante e debateu também, é preciso dizer, com seus militares, mais familiarizados, em suas cabeças e em suas lembranças, a lutar contra o Ocidente do que a cooperar com ele.Após longas horas de meditação em Stochi, às margens do mar Negro, Putin acabou declarando seu apoio à operação militar americana.Não foi fácilCertamente, não é o caso de um envolvimento militar direto das tropas russas contra o Afeganistão. Mas ele declarou que o espaço aéreo russo estaria aberto aos vôos que transportarem ajuda humanitária, especificando inclusive que "a Rússia estaria pronta a participar, se necessário, de operações humanitárias de salvamento e de buscas internacionais".Assim, a "queda de braço" que levaria a uns contra os outros - Vladimir Putin, o presidente, e seus militares - foi interrompida em favor da coalizão antiterrorista.Mas isso não foi fácil. Aliás, o representante dos militares no governo russo, o ministro da Defesa, Serguei Ivanov, marcou os limites e repetiu incessantemente desde o início da crise: "Qualquer operação militar no solo afegão está excluída, e Moscou vai se contentar em dar sua ajuda apenas à Aliança do Norte". (A Aliança do Norte, ou seja, esses irredutíveis afegãos que, com o comandante Massud, assassinado poucos dias antes do ataque a Nova York, se rebelam contra a ordem monstruosa dos talebans).HorrorA maioria dos militares russos tem horror a entrar na coalizão ocidental forjada por Bush. É compreensível. A maior parte das altas patentes foi formada na época da União Soviética. E a perspectiva de se encontrar, de repente, no campo de seus inimigos de ontem lhes dá uma sensação estranha."A maioria dos soldados é muito cética em relação à idéia de cooperar com os ocidentais", considera o especialista moscovita em questões militares Alexander Golts.As razões de PutinPor que Putin desprezou as resistências de seus militares? São muitas as razões: estreitar seus laços com o Ocidente; receber, talvez, ajuda financeira considerável; ter a esperança de, algum dia, entrar para os sistemas de segurança ou de alianças ocidentais e européias (Otan, OMC...). Essa é uma primeira série de justificativas para a posição pró-Ocidental de Putin.Mas há algo mais, e foi dito claramente: a Rússia conduz uma guerra selvagem, há anos, em uma de suas províncias, a Chechênia, contra rebeldes. O exército russo utiliza os meios mais abomináveis contra os chechenos independentistas.O Ocidente, que é muito severo no que diz respeito aos "direitos humanos" (principalmente nos países distantes), jamais aceitou o horror da repressão na Chechênia e, constantemente, repreende Putin a propósito dessa questão.Troca de favoresMas, desde os atentados em Nova York, Putin tem argumentos para opor ao "moralismo" dos ocidentais. Explica que os chechenos, que lutam contra o poder central russo, não são diferentes desses talebans que explodiram as torres do World Trade Center. Islamitas fanáticos. Pessoas que têm "um ódio generalizado". Conclusão: "Ocupem-se dos talebans e ajudamos vocês. Mas deixem de gritar contra as operações pente-fino que nós, russos, somos obrigados a fazer contra nossos chechenos".Pode-se falar de uma "troca de favores". O jornal moscovita Kommerzant anuncia: "Em 72 horas, a Rússia vai agir na Chechênia sem levar em conta a comunidade internacional. E esta última (a comunidade internacional), dirigida pelos Estados Unidos, terá liberdade de ação no Afeganistão" (é dando que se recebe...).Frases estranhasSem dúvida, Putin vê ainda mais a longo prazo: diante do Bundestag (Assembléia Legislativa), em Berlim, ele acaba de pronunciar frases estranhas. Ao retomar as atrocidades em Nova York, disse: "Somos todos responsáveis, principalmente os políticos que confiam em um sistema de segurança ultrapassado".Em que ele estava pensando? Nos sistemas policiais de cada país (a CIA, a KGB etc.) ou nos sistemas de aliança que unem os diferentes países do Ocidente? Aguardemos alguns dias.

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