Atentados contra QG da inteligência da Síria matam 44, segundo Damasco

Em um ataque sem precedentes nos nove meses de convulsão na Síria, dois carros-bomba atingiram ontem prédios dos serviços de inteligência do regime de Bashar Assad, numa das partes mais controladas de Damasco. Segundo militares, 44 pessoas morreram e mais de 166 ficaram feridas. A imprensa estrangeira não teve livre acesso ao local e a oposição síria levantou suspeitas sobre a dimensão - e mesmo a autoria - do atentado.

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h07

As explosões "têm a marca da Al-Qaeda", afirmou a agência estatal de notícias síria. Assad vem culpando "gangues, terroristas e governos estrangeiros" pela instabilidade em seu país e, rapidamente, a tragédia de ontem foi apresentada pelo regime como prova de que militantes islâmicos - e não opositores pró-democracia - estão conspirando contra a Síria.

O ataque ocorreu ainda em um momento especialmente delicado para Assad: menos de 24 horas antes das explosões, haviam começado a desembarcar em Damasco os primeiros observadores da Liga Árabe. Os emissários do bloco devem relatar se a Síria está cumprindo sua promessa de retirar as tropas das ruas, libertar presos políticos e abrir o regime.

"Dissemos desde o início: isso é terrorismo. Estão matando militares e civis", disse Faysal Mekdad, vice-chanceler sírio, diante do local da tragédia. Ele estava acompanhado de Sameer Seif el-Yazal, que chefia o time de observadores da Liga Árabe. "Estamos aqui para observar os fatos. O que estamos vendo é lamentável e o importante é que as coisas se acalmem", disse Yazal.

"O Líbano havia nos alertado há dois dias que a Al-Qaeda havia entrado na Síria pela cidade de Ersal", disse Jihad Makdesi, porta-voz do governo Assad.

O Conselho Nacional Sírio (CNS), guarda-chuva que reúne vários grupos que se opõem a Assad, culpou Damasco pela tragédia, dizendo que o ditador tem "responsabilidade direta" pelas explosões. "O regime quis emitir uma mensagem de advertência aos observadores para que não se aproximem dos centros de segurança", disse o CNS, por meio de comunicado.

"Temos suspeitas de que eles (os atentados) podem ter sido organizados pelo próprio governo", disse Basma Qadmani, porta-voz do CNS. O número 1 do grupo, Omar Idilbi, afirmou que as explosões "são muito misteriosas, porque ocorreram em uma região muito protegida, em que um carro dificilmente conseguiria se infiltrar".

Focos da repressão. Nos últimos meses, militares sírios passaram para o lado dos opositores e os ataques contra tropas leais ao regime começaram a se tornar mais violentos. A dimensão do atentado de ontem, entretanto, não tem precedentes - foi o primeiro ataque suicida desde o início dos confrontos.

Os prédios atingidos ontem foram os da Agência Geral de Inteligência e do serviço de espionagem das Forças Armadas. Os dois órgãos têm desempenhado papel central na repressão aos opositores.

Segundo autoridades, os dois carros-bomba foram detonados quase simultaneamente às 10h15 (6h15 em Brasília). Eles foram estacionados diante dos portões dos prédios públicos. As explosões ressoaram por toda Damasco, relataram moradores.

Imagens da TV estatal mostravam corpos mutilados e poças de sangue do lado de fora dos edifícios. Paramédicos e pessoas com trajes civis usavam macas e até cobertores para transportar feridos e mortos. "A explosão chacoalhou a casa, foi terrível", afirmou Nidal Hamidi, jornalista que mora no centro da capital. Ele disse que, após o estrondo, disparos foram ouvidos. / AP

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