Atentados e guerras mudam uma nação

Até 11/9, a economia era vigorosa; hoje, a dívida ampliou-se e país tornou-se mais conservador

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / WASHINGTON

Em 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos nadavam a braçadas pelo mundo. Sua economia mostrava-se vigorosa, com expansão de 3,4%, o desemprego não chegava a 5% e o superávit nas contas públicas equivalia a 1,7% do Produto Interno Bruto (PIB). Os consumidores pareciam insaciáveis e confiantes, tomando crédito para novas compras e hipotecas. Tropas americanas não estavam envolvidas em combates, e o jogo de forças internacionais parecia consolidar a ordem unipolar. Passados dez anos, os EUA resultantes desse mesmo 11 de setembro de 2001 são outro país.

Desde a tragédia idealizada e realizada pela organização terrorista Al-Qaeda, os "EUA não tiveram uma boa década", como resume Thomas Mann, pesquisador sênior do Brookings Institution. Os impactos do terror foram profundos e não se restringiram à amarga perda de 3 mil vidas nas Torres Gêmeas de Nova York, no Pentágono, em Arlington, e no Boeing 757-222 que caiu no Estado da Pensilvânia, e aos 6 mil feridos.

Ao longo desta primeira década, 6.220 soldados americanos morreram nos fronts do Iraque e Afeganistão, países invadidos pelos EUA em uma furiosa caçada aos líderes da Al-Qaeda, de seus aliados do Taleban e de outras redes extremistas islâmicas. Outros 32.159 americanos acabaram feridos e cerca de 40 mil retornaram ao país devastados pelo estresse pós-traumático, doença "invisível", causa de inúmeros suicídios.

Os recursos públicos investidos nas operações militares e diplomáticas e na assistência médica aos veteranos totalizaram US$ 1,28 trilhão, segundo relatório de março do Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA. Tratou-se de um investimento hoje equivalente a 8,9% da dívida federal americana e a cerca de 8,5% do PIB. No território americano, o gasto com segurança era de US$ 17,1 bilhões até o 11 de Setembro. Em 2005, havia sextuplicado e, neste ano, deve somar US$ 69 bilhões, segundo o Departamento de Segurança Interna. No total, US$ 649 bilhões do orçamento federal foram orientados para essa área em dez anos, dos quais US$ 369 bilhões foram associados à prevenção a novos ataques terroristas nos EUA.

De Bush a Obama. Um governo diferente do de George W. Bush, republicano do Texas eleito em 2000, não teria tomado outro rumo, na opinião de Mann. Nem em relação aos dois fronts abertos no mundo islâmico e, possivelmente, nem sobre o incentivo interno à concessão de crédito imobiliário e à ausência de regulação mais estrita para o setor financeiro - as raízes da crise de 2008 e da maior recessão enfrentada pelos EUA desde 1930.

A injeção de recursos públicos na máquina de guerra contribuiu para inverter o saldo positivo nas contas públicas em 2002 e para ajudar a fermentar o déficit fiscal a cada ano. A dívida federal saltou de US$ 10,3 trilhões, em 2001, para a atual cifra de US$ 14,6 trilhões e tornou-se um dos focos da recente crise política no país. Abalados pelo rebaixamento da nota de crédito de longo prazo e a instabilidade política, os EUA veem-se à beira de uma nova recessão, a segunda em apenas três anos, diante de uma taxa de desemprego de 9,1% e a apenas 14 meses da eleição presidencial.

"Como consequência dos ataques, houve um brutal declínio da confiança no governo. O Partido Republicano moveu-se com o Tea Party para a extrema direita e perdeu contato com a realidade, criando um sistema político disfuncional", afirmou Mann, referindo-se à facção política criada em 2009 como reação à agenda social e econômica do governo Barack Obama.

De fato, quase US$ 2 trilhões em recursos públicos poderiam ter sido alocados, ao longo da década, em outras áreas. Sobretudo àquelas capazes de elevar a competitividade americana, de assegurar o bem-estar social no país e prevenir o colapso financeiro de 2008. Para Michael Mandelbaum, professor de Política Externa Americana da Johns Hopkins University, os ataques do 11 de Setembro dispersaram a atenção e os recursos do país dos desafios resultantes da globalização, da revolução da tecnologia da informação, dos déficits públicos e do padrão de energia fóssil. Essa agenda interna ainda está em aberto e ameaça a recuperação da economia e a própria autoestima da nação. "Os esforços após o 11 de Setembro, embora necessários, tornaram mais difícil tratar dos atuais desafios", afirmou Mandelbaum.

Passados dois anos e meio da posse do primeiro presidente negro dos EUA, eleito sob os lemas da "mudança" e do fim das guerras, e dez anos dos ataques da Al-Qaeda, Obama ainda lida com os conflitos no Iraque e do Afeganistão.

A ansiedade de livrar-se de ambos o quanto antes é evidente. No Paquistão, onde há uma terceira guerra informal, as perspectivas da saída americana são ainda mais complicadas. A desconfiança sobre a proteção dissimulada de Islamabad aos líderes da Al-Qaeda tornou-se fragrante em 1o de maio. Em uma operação sigilosa, forças especiais da Marinha dos EUA executaram Osama bin Laden, líder máximo da organização que vivera seis anos escondido em uma fortaleza vizinha de base militar e a apenas 62 quilômetros da capital paquistanesa. Mas o governo americano mantém o discurso da cooperação com esse aliado não confiável.

Ditadores. Os EUA ainda se veem diante de um cenário alterado no mundo árabe pela deposição de regimes ditatoriais - alguns históricos aliados dos EUA - e por uma carência inédita de recursos necessários para agradar a seus parceiros e tocar a sua política exterior. Mandelbaum considera inevitável esse recuo nas ambições diplomáticas e aponta, como vítima imediata, a política de construção de nações - a cooperação com forte injeção de divisas para consolidação de governos democráticos em países nos quais os militares dos EUA atuaram.

O Iraque, do qual as tropas americanas começaram a sair há um ano, foi parcialmente beneficiado por esse sistema. O último soldado dos EUA deve deixar o Iraque até dezembro de 2014. O início modesto da retirada de tropas americanas do Afeganistão foi marcado para o final do ano e deve prosseguir por mais três anos.

A retirada contraria as avaliações do Pentágono sobre os avanços no terreno. Mas os EUA não têm mais como contornar a redução de ao menos US$ 2,1 trilhões na dívida federal até 2022, ditada pelo Congresso. Isso significará o corte pela metade do atual orçamento de Defesa a partir do ano fiscal de 2012, para US$ 350 bilhões.

US$ 1,28 tri foram gastos em assistência médica aos veteranos

US$ 649 bi do orçamento federal foram destinados à área de segurança em 10 anos

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