Daniel Berehulak/The New York Times
Daniel Berehulak/The New York Times

Atentados envergonham moradores de reduto islâmico em Bruxelas

A maioria em Molenbeek está constrangida pelo fato de os terroristas serem originários do bairro

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL / BRUXELAS, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2016 | 05h00

Um tácito sentimento de humilhação e muito constrangimento são visíveis nos rostos e nas falas dos moradores do distrito de Molenbeek-Saint-Jean, em Bruxelas. Epicentro do jihadismo na Bélgica e considerado por especialistas em segurança como uma virtual base avançada do Estado Islâmico na Europa, em razão da alta concentração de extremistas que partiram para Síria e Iraque, a região se tornou famosa em todo o mundo após a série de atentados que vem atingindo o continente nos últimos três anos.

E, desde terça-feira, seus moradores convivem também com o peso de 31 mortes e mais de 270 feridos cometidas por moradores do bairro.

Entre os extremistas originários de Molenbeek estão Abdelhamid Abaaoud, mentor dos atentados de 13 de novembro em Paris, e os irmãos Ibrahim e Salah Abdeslam – este último preso na sexta-feira após mais de quatro meses de fuga.

Todos integravam o mesmo grupo de terroristas que atacou nos dois países e é responsável por 161 mortes até aqui. Nesta quarta-feira, com a revelação pela polícia das identidades dos autores dos atentados de Bruxelas e de sua vinculação com os ataques de Paris, o clima de intimidação e consternação era perceptível no distrito.

Na casa da família Abdeslam, situada na Praça Comunal, onde a reportagem do Estado esteve nesta quarta-feira, ninguém respondeu ao interfone. Evitar a imprensa é a atitude adotada por muitos dos moradores – ou por vergonha, ou por constrangimento frente ao assédio da imprensa internacional.

Najim Zachraoui, de 38 anos, comerciante que vive a poucos metros da família Abdeslam e conheceu os jovens envolvidos nos atentados, confirma o sentimento de vergonha. "A família Abdeslam continua a morar na casa. Mas eu não conheço os irmãos Bakraoui, nem Laachraoui", disse, referindo-se aos autores dos ataques ao aeroporto de Zaventem e à estação de Maelbeek.

Para o comerciante, Molenbeek  tornou-se referência internacional porque terroristas islâmicos sempre procurarão refúgio nas comunidades muçulmanas, mas isso não significa que a população apoie seus atos. "Ficamos todos desgostosos desde que recebemos a notícia. Eu tive vontade de vomitar e tremia. Mesmo depois dos atentados de Paris, pensávamos que jamais aconteceria em Bruxelas. E é muito triste."

Para Kamal A. também comerciante, Molenbeek sofre com a fama. "Sabemos que o Estado Islâmico já ameaçou a França e seus aliados, como eles dizem. Mas nunca pensamos que isso poderia acontecer em Bruxelas. Pensávamos em outras capitais, como Roma ou como nos EUA", diz Kamal, que lamenta ver Molenbeek ser conhecido em todo o mundo por más razões.

Questionado sobre o radicalismo que atraiu tantos jovens do distrito, o comerciante reconhece ser um problema ainda atual. "Isso continua existindo e existe há muito tempo. Mas já era assim quando George W. Bush invadiu o Iraque e o Afeganistão, e então ninguém falava de Molenbeek", queixa-se.

Um discurso reincidente entre os moradores é a culpabilização dos jornalistas e da imprensa internacional – que acusam de reforçar o estereótipo da região. Poucos, porém, falam abertamente sobre o problema do jihadismo tão latente entre jovens do distrito.

Para a maioria, não se trata de um problema de dogmatismo religioso ou de doutrinamento, mas de manipulação pelo grupo terrorista Estado Islâmico, causado sobretudo por ignorância, preconceito social, falta de oportunidades e desemprego.

"É muito fácil recrutar alguém que é ignorante e não tem educação, que tem problemas com a Justiça, que tem uma relação difícil com os pais, que abandonou a escola e não tem emprego", diz o empresário Karim Bazah, de 36 anos. "O perfil dos jovens que foram recrutados pelo Estado Islâmico é muito claro."

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