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Atentados no Chile

Atos de violência não são novidade no Chile. Especialmente em setembro, quando o país inteiro relembra - e remói - o golpe militar de 1973. Lá se vão 41 anos, mas a memória da ditadura, que durou 17 anos e matou 40 mil, é combustível renovável para toda ordem de descalabro.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2014 | 02h03

Se fazem parte desse libelo os três atentados a bomba na semana passada - um no metrô de Santiago e os outros num supermercado e num centro comercial em Viña del Mar, com pelo menos 17 feridos - não se sabe. Ninguém assumiu os ataques e investigadores procuram pistas.

Mas, já que até os mais ensandecidos têm suas razões, é tempo para se refletir sobre o que levaria uma sociedade das mais ordeiras do Hemisfério para a antessala do inferno, com referências ao "terrorismo" e a pedidos para reativar o aparato de inteligência da era Pinochet.

Miséria e desordem galopante, não é. Poucas nações fizeram tanto para desarmar as bombas históricas que se espalham pela América Latina. O Chile ostenta renda per capita das mais altas da região, o melhor desempenho escolar, analfabetismo quase zerado e apenas 10% da população abaixo da linha de pobreza.

Sua política "anticíclica", de poupar na bonança para gastar em tempo de vacas magras, virou modelo fiscal para os mercados emergentes. Seu pacto político, com governo de consenso, criou uma cultura de convivência que mantém o país estável, democrático e próspero, seja num governo ultracapitalista ou num socialista.

De perto, o retrato andino não é tão belo. Sim, as ruas do Chile são as mais seguras nas Américas (3,1 homicídios por 100 mil habitantes), atrás apenas do Canadá. Seu programa de combate à pobreza, Chile Solidário - com assistência vocacional e porta de saída para que o benefício não se eternize - é o melhor do continente.

Por essas e outras, o Chile desponta como líder latino. Mas os chilenos querem mais que o título do melhor dos menores. Reconhecem também que são os últimos dos melhores. O Chile tem a maior taxa de desigualdade de renda dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE). Em provas para resolução de problemas, alunos de 15 anos pontuam abaixo da média de seus pares do bloco da alta renda.

O Chile orgulha-se do seu sistema de ensino, que mistura escola pública com iniciativa privada e multiplicou por dez o número de universitários desde a década de 80. Só que a dobradinha com o mercado deixou os alunos à mercê de salgados empréstimos bancários, levando-os ao pesado endividamento ou até ao abandono das aulas.

A socialista Michelle Bachelet pegou a onda da rebelião até o Palácio de La Moneda, empunhando a bandeira do ensino público universal e gratuito. Para bancar a bondade, sua maioria governista acaba de aprovar a reforma tributária, que pretende arrecadar US$ 8,2 bilhões.

Os empresários chiaram. Com a economia em passo lento, não querem perder o Fundo de Utilidades Tributárias (FUT) que permite reciclar impostos para reinvestimento.

Só que o FUT, hoje em US$ 270 bilhões, pouco estimula o crescimento e contribui modestamente à inovação. "O Chile sustenta uma das menores taxas de pesquisa e desenvolvimento da OCDE", disse Ricardo Hausmann, economista da Universidade de Harvard, à chilena Revista Capital.

Assim, o subsídio virou um fundo de complacência. Este é um dos motivos para que a economia mais aberta da região quase não ostente marca global. Os rebeldes chilenos, claro, não se comovem com a inovação e ninguém detona uma bomba por complacência. Mas a pólvora de setembro bem que poderia levar o país modelo latino a refletir sobre o que ainda está por fazer.

É COLABORADOR DA BLOOMBERG VIEW

E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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