Atentados simultâneos matam 21 e ferem mais de 100 em mesquita do Irã

Autoria dos ataques foi reivindicada pela organização radical sunita Jundallah, que trava violenta campanha contra os xiitas no Sistão-Baluquistão, região iraniana que faz fronteira com Paquistão e Afeganistão e é usada como corredor do narcotráfico

Afp e Reuters, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2010 | 00h00

TEERÃ

Um duplo atentado contra a Grande Mesquita da cidade de Zahedan, no sudeste do Irã, matou ontem pelo menos 21 pessoas - incluindo soldados da Guarda Revolucionária, o braço armado do regime dos aiatolás. Ocorridas pela manhã, quando a mesquita xiita estava lotada, as explosões feriram mais de cem fiéis, segundo a imprensa iraniana.

A organização radical sunita Jundallah (soldados de Deus) enviou um e-mail para a rede de TV Al-Arabiya, de Dubai, reivindicando a autoria do duplo atentado. O grupo conduz uma sangrenta campanha contra xiitas no Sistão-Baluquistão, província que faz fronteira com Paquistão e Afeganistão, e cuja capital é Zahedan. Essa região é conhecida pela tensão sectária, além de ser um corredor usado por narcotraficantes e contrabandistas.

De acordo com o suposto e-mail do grupo, a agressão de ontem seria uma resposta à execução do líder do Jundallah, Abdolmalek Rigi. Ele foi enforcado no mês passado em Teerã acusado de ter liderado o último ataque do grupo, lançado em outubro na cidade de Pishin, também no Sistão-Baluquistão. Na ocasião, 42 pessoas morreram, incluindo 15 integrantes da Guarda Revolucionária.

À agência de notícias estatal Fars, o vice-governador do Sistão-Baluquistão, Jalal Sayyah, disse que a primeira explosão ocorreu depois das 9h20, enquanto uma multidão de fiéis aguardava na rua diante da Grande Mesquita. Ontem era o aniversário da morte do imã Hussein, neto do Profeta Maomé e figura central do xiismo.

Momentos depois do primeiro ataque, um novo explosivo foi detonado diante da mesquita. Segundo as autoridades locais, os dois atentados teriam sido cometidos por militantes suicidas que usavam cinturões-bomba.

O deputado Hossein Ali Shahriari afirmou que o primeiro militante a detonar seus explosivos estava disfarçado de mulher. "Ele tentou entrar na mesquita, mas foi impedido", disse Shahriari. "Quando as pessoas tentaram ajudar os feridos, outro homem atacou." O segundo atentado teria sido mais intenso que o primeiro. "Havia pedaços de gente por toda parte", noticiou a emissora Irna.

"Mercenários". A Guarda Revolucionária prontamente denunciou um complô internacional que estaria por trás do ataque. "Considerando as confissões (de Rigi), já não é mais possível ter dúvidas sobre o envolvimento dos EUA, dos sionistas e de alguns países ocidentais no atentado de hoje (ontem)", disse Yadolah Javani, chefe do escritório político da Guarda Revolucionária. O Irã também acusa o grupo de ter vínculos com o serviço de inteligência do Paquistão e com a rede terrorista Al-Qaeda.

Não houve reações oficiais nos EUA e em Israel aos ataques de ontem. Mas o atentado cometido pelo Jundallah em outubro foi condenado oficialmente pelo presidente americano, Barack Obama.

De acordo com Javani, "inimigos do povo" querem fomentar a discórdia entre xiitas e sunitas no Irã. A tragédia de ontem, afirmou o militar, foi cometida por "mercenários".

No e-mail enviado à Al-Arabiya, o grupo sunita iraniano afirmava que o alvo dos ataques eram os soldados da Guarda Revolucionária. Autoridades iranianas até agora não revelaram o número de militares mortos nos atentados.

Para lembrar

Islamabad e Riad apoiaram grupos sunitas

Embora existam há séculos, as clivagens sectárias no Irã ganharam importância nos últimos 30 anos. Com a Revolução Islâmica, em 1979, o ditador paquistanês Mohamed Zia-ul-Haq passou a apoiar grupos militantes antixiitas dentro do Irã. O objetivo era conter a influência dos aiatolás, que prometiam "exportar a revolução". A ação de Islamabad ganhou apoio - e financiamento - da Arábia Saudita, que também queria conter o poder iraniano na Ásia Central e no Oriente Médio.

Raio-x do grupo

Objetivo - O Jundallah diz proteger a minoria sunita do Irã de "abusos" do governo de Teerã, comandado pela maioria xiita. O líder Abdolmalek Rigi, executado em 20 de junho, diz haver um "holocausto" no Irã

Origem - A organização foi formada em 2002, mas passou a conduzir sua campanha armada a partir de 2005

Modus operandi - Atentados a bomba são a marca do Jundallah. Mas o grupo também realiza sequestros por motivações políticas e criminosas. Há indicações de que o Jundallah já se aliou ao Taleban

Raiz social - Militantes da organização são sunitas da minoria baluque

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