AP Photo/Dolores Ochoa
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Atingido por crise do petróleo, Correa manobra para fazer sucessor neste domingo

Após 10 anos no poder, presidente garante favoritismo a seu candidato, apesar de enfrentar queda de popularidade; analistas associam alto endividamento com governo chinês após queda no preço do combustível a estratégia para vencer eleição

Luiz Raatz / Enviado Especial, Quito , O Estado de S. Paulo

18 Fevereiro 2017 | 17h00

O presidente do Equador, Rafael Correa, tinha tudo a seu favor: popularidade em alta, bons indicadores econômicos e sociais e a permissão da Assembleia Nacional para tentar um novo mandato – o quarto desde 2007. Isso até a queda do preço do petróleo, em 2014. Desde então, dedica-se a controlar o efeito da recessão e de denúncias de corrupção, estratégia com que pretende fazer o sucessor na eleição deste domingo.

A redução no valor do barril, aliada à apreciação do dólar e os prejuízos provocados pelo terremoto do ano passado jogaram o Equador numa recessão. Correa então subiu impostos, cortou benefícios sociais e recorreu a mais endividamento com bancos chineses. Entre 2015 e 2016, diminuiu investimentos, tirou benefícios de aposentados e pensionistas e aumentou o imposto de valor agregado. O investimento em educação e saúde não foi cortado, mas tampouco cresceu. 

A socióloga Natália Barbara Sierra, da PUC do Equador, acredita que foi feita uma aposta de alto risco. “O governo se endividou para ganhar a eleição e a conta vai vir nos próximos meses e anos”, disse ao Estado. “Tanto a dívida interna quanto a externa superaram o previsto.”

Outra medida controvertida, essa no campo político, foi impor sigilo sobre a lista de suspeitos de ter recebido propina da construtora Odebrecht. O caso agravou a desilusão com os políticos e explica em parte o fato de, até semana passada, haver 30% de indecisos. 

O presidente vê parte de sua base de apoio insatisfeita e indecisa quanto ao apoio a seu candidato, o ex-vice-presidente Lenín Moreno. Em meio à crise econômica, que levou o Equador a uma retração projetada de 1,7% na economia no ano passado, Correa viu sua popularidade cair ao nível mais baixo desde que assumiu o Palácio de Carondelet, em 2007. Segundo o Instituto Cedatos Gallup, 42% dos equatorianos o aprovam – um número que historicamente esteve ao redor de 60%.

Na periferia da capital equatoriana, a imagem de Correa ainda é positiva, mas sobretudo os aposentados se ressentem do corte de 40% no subsídio dado pelo Estado ao Instituto de Segurança Social do Equador (IESS) em 2015 (mais informações na página A13).

Especialistas concordam em dizer que a crise só não é pior porque Correa recorreu a financiamento chinês em troca de petróleo para compensar a queda na receita e a apreciação de moedas vizinhas, que tornou as importações mais caras no país. 

“O Estado equatoriano tem mantido o nível de gasto público com crédito externo, principalmente da China, e com isso pode ter comprometido as receitas do próximo governo”, disse o economista Walter Spurrier, da Consultoria Spurrier. “Correa conseguiu manter a liquidez, mas continua com uma posição hostil ao investimento privado e isso custou a geração de empregos formais. Só no ano passado foram 250 mil demissões. As empresas perderam competitividade”.

O presidente, conhecido pelo caráter explosivo e centralizador, quer evitar que o Equador seja o mais novo capítulo do que ele próprio batizou de “Restauração Conservadora”, em referência às vitórias da centro-direita nos últimos 18 meses, em eleições na Argentina, Peru, Venezuela (votação legislativa) e Bolívia (referendo para permitir mais um mandato a Evo).

Os desafiantes com mais chance de incluir o Equador nessa onda são o ex-banqueiro Guillermo Lasso, da aliança Creo-Suma e a deputada Cynthia Viteri, do Partido Social Cristão. Para que a eleição seja definida no primeiro turno, o vencedor precisa de 50% mais um dos votos ou 40% mais um – desde que a vantagem para o segundo supere dez pontos porcentuais. 

Correa reservou a última semana de campanha para cortar fitas. Na quarta-feira, foram inaugurados três hospitais em Machala. Outros dois hospitais, um em Guayaquil e outro em Quito, foram inaugurados durante a campanha.

No mercado de La Michelena, no sul de Quito, o otimismo já não é o de 2013, quando Correa foi reeleito com mais de 60% dos votos – o limite à reeleição foi derrubado em 2015, mas a decisão não vale para a votação de hoje. “Ninguém deixa de comprar comida, mas agora as pessoas escolhem mais o que vão levar”, conta o açougueiro José Navas. “A crise está muito feia. Muito mesmo.”

 

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