Reuters
Reuters

Atirador de escola judaica de Toulouse foi treinado em campos do Afeganistão

Terrorista identificado como Mohamed Merah resistia à prisão até ontem à noite, apesar de cercado em sua casa

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / TOULOUSE, O Estado de S.Paulo

22 Março 2012 | 03h02

TOULOUSE - Em uma investigação que mobilizou a França, a polícia e os serviços secretos cercaram o homem que admitiu ter cometido três atentados no intervalo de dez dias na região de Toulouse, deixando sete mortos - entre os quais três crianças judias.

 

Veja também:

linkSuspeito parou de fazer contato ontem à noite

link IP de computador entregou localização de Merah

link Atirador francês fugiu de prisão no Afeganistão

link Mohammed Merah era investigado há anos

 

Trata-se de Mohamed Merah, 23 anos, jovem francês de origem argelina treinado em campos da Al-Qaeda no Paquistão e no Afeganistão. Cercado havia mais de 24 horas, ele se recusava a se render, depois de ferir mais dois policiais.

Ao longo da noite de ontem, a polícia chegou a fazer disparos e a lançar bombas de efeito moral, na tentativa de fazer com que se entregasse.

O cerco teve início às 3h05 da madrugada de ontem, quando agentes da polícia e da Direção Central de Informação Interior (DCRI), um dos serviços secretos franceses, localizaram a casa do suspeito, situada em 17, Rue Sergent-Vigné, no distrito de Côte Pavé, um dos mais valorizados de Toulouse.

Ao cercarem o prédio, os policiais instalaram um aparelho capaz de escanear o interior de um imóvel e descobriram que Merah estava sozinho e bem armado. Durante a primeira tentativa de abordagem, o jovem atirou contra dois agentes, ferindo-os, mas sem gravidade. Nas horas seguintes, houve pelo menos duas tentativas de invadir o apartamento, em um térreo.

Nascido na periferia de Toulouse, Merah teve problemas com a Justiça ao longo de toda a adolescência, sendo detido mais de dez vezes. Aos 18 anos, foi preso por assalto, cumprindo 18 meses de pena. Em razão desse histórico, teve dois pedidos para ingressar nas Forças Armadas negados. Em 2010, foi a Kandahar, no Afeganistão, e em 2011, visitou zonas tribais do Paquistão. Nessa época, chegou a ser preso pela polícia do país, que informou o serviço secreto da França sobre o treinamento que o jovem teria realizado em campos da Al-Qaeda. Há pouco mais de um ano, vivia em Côte Pavé.

Na noite de ontem, os vizinhos foram acordados pela invasão do edifício pela polícia, seguida de troca de tiros e de uma forte explosão. "Todo mundo acordou espantado. Ligamos para a polícia e nos informaram que havia operação da polícia em curso e que deveríamos ficar em nossas casas", disse ao Estado Nathalie M., moradora do prédio de Merah.

Durante as negociações, Merah disse atuar em nome da Al-Qaeda, protestou contra a proibição do uso da burca na França, contra a presença de militares do país no Afeganistão e afirmou que cometia seus crimes por considerar os agentes do Estado "alvos legítimos". Ele indicou o local em que havia estacionado um automóvel com explosivos e disse que alugara outro veículo, no qual armazenou armas. O jovem também confirmou que gravava seus crimes, disse que pretendia desferir ataques contra Paris, Marselha e Lion e tinha planos de voltar a atacar ontem. "Ele informou que pretendia voltar a atacar, abatendo um militar que havia escolhido. Também indicou que tinha outro projeto criminoso, de matar dois policiais em serviço na região de Toulouse", disse François Molins, procurador de Paris e responsável pelo caso. "Ele não expressa nenhum lamento e se orgulha de ter, como ele diz, 'posto a França de joelhos'."

Segundo o ministro do Interior, Claude Guéant, Merah disse que planejava matar mais um policial na segunda-feira, mas como não achou um alvo acabou atirando nas crianças. Guéant confirmou que Merah vinha sendo monitorado pelos serviços secretos do país, mas se recusou a admitir que as autoridades tenham menosprezado o perigo. "Ele era conhecido dos serviços de inteligência, que observaram sua radicalização dentro do salafismo e que estavam informados de suas viagens para o Paquistão e Afeganistão em 2011", disse, ponderando: "Mas ele se tornou um suspeito na segunda-feira à tarde. Quanto tivemos indícios claros pudemos localizá-lo".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.