Courtesy of Eric Paddock via AP
Courtesy of Eric Paddock via AP

Atirador usou câmeras para vigiar polícia antes de disparar por 9 minutos

Stephen Paddock usou mecanismo para transformar rifle semiautomático em metralhadora e maximizar destruição; polícia de Las Vegas ainda não sabe motivo que levou contador aposentado a se tornar o maior assassino em massa da história dos EUA

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Las Vegas, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2017 | 19h06
Atualizado 04 Outubro 2017 | 08h39

O autor do maior massacre a tiros da história dos EUA planejou sua ação de maneira meticulosa e adotou medidas para que ela tivesse o efeito mais destruidor possível. Pelo menos um de seus fuzis semiautomáticos foi transformado em metralhadora com o uso de acessório que acelera a velocidade dos tiros. 

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Fora de sua suíte no 32.º andar de um hotel de Las Vegas, ele instalou câmeras para monitorar a ação da polícia. Antes que pudesse ser preso, Stephen Paddock se suicidou. Foi encontrado um arsenal de 47 fuzis e revólveres no seu quarto de hotel, em sua casa em Mesquite e numa segunda residência em Reno. Todas as armas foram adquiridas de maneira legal, em quatro diferentes Estados americanos, ao longo de 20 anos. 

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Dois dias depois do ataque, a polícia ainda não havia determinado as razões que levaram o aposentado de 64 anos a abrir fogo contra uma multidão de 22 mil pessoas reunidas em um festival de música country. Hoje, autoridades envolvidas na investigação revelaram que Paddock enviou US$ 100 mil para uma conta nas Filipinas, país de nascimento de sua namorada, Marilou Danley. 

Na quinta-feira, o atirador se hospedou no hotel Mandalay Bay, em Las Vegas, de onde executou o ataque. No dia anterior, Danley havia embarcado para Hong Kong. Cidadã australiana, ela vivia com Paddock em um condomínio a 130 km de Las Vegas. O aposentado tinha uma situação financeira confortável, era dono de vários imóveis e jogava com frequência.

Danley é uma pessoa de interesse para a investigação”, disse hoje o xerife do Departamento de Polícia Metropolitana de Las Vegas, Joseph Lombardo. Sua chegada aos EUA é esperada para amanhã, quando deverá ser interrogada. O FBI afirmou que não há nenhuma indicação de vínculo de Paddock com grupos terroristas internacionais. “(O ataque) foi planejado de maneira extensiva e estou seguro que ele avaliou tudo o que fez em suas ações, o que é perturbador”, afirmou o xerife.

“O atirador usou armas de grosso calibre, o que potencializou o impacto dos disparos”, disse o chefe do setor de cirurgia do trauma do Hospital da Universidade de Las Vegas, Douglas Fraser. “Nós vemos ferimentos a bala todos os dias aqui, mas os ferimentos (de domingo) eram diferentes. Ferimentos associados a um calibre tão grande são devastadores”, observou Fraser, que atende aos feridos.

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O dispositivo que potencializa o efeito das armas semiautomáticas pode ser comprado sem restrições nos EUA por cerca de US$ 100. Rifles semiautomáticas exigem que o atirador aperte o gatilho repetidamente. Mas o chamado “bump-stock” modifica o gatilho e permite que vários tiros sejam disparados com apenas um movimento. Em razão do seu potencial destruidor, a venda de metralhadoras é estritamente regulada no país. 

Paddock usou martelos para abrir buracos em duas janelas de sua suíte, diante das quais posicionou rifles sustentados por tripés. De lá, com a ajuda de miras telescópicas, atirou de maneira indiscriminada na multidão, que estava a 500 metros de distância. Sem saber de onde os disparos vinham, muitos se atiraram no chão, o que os transformaram em alvos ainda mais expostos. Todo o ataque durou nove minutos e deixou 59 mortos e 527 feridos. 

Os disparos sucessivos encheram o quarto de Paddock de fumaça, o que disparou o alarme de incêndio e ajudou a polícia a localizá-lo. Apesar de ele ter 23 armas e munição em 10 malas, nenhum funcionário do hotel considerou o comportamento do atirador suspeito.

Com exceção de luminosos que pediam doação de sangue, havia poucos sinais da tragédia na área turística de Las Vegas, onde estão concentrados os cassinos e hotéis com dezenas de milhares de quartos. No ano passado, a cidade recebeu 42 milhões de visitantes.

O impacto da tragédia foi sentido fora da área turística. Na região norte da cidade, que concentra alguns dos principais hospitais, a população se mobilizou para doar sangue, alimentos, água e conforto para os que enfrentavam a tragédia. O número de pessoas que compareceu aos bancos de sangue, na segunda-feira, foi tão grande que supriu a necessidade imediata dos centros de saúde. 

Solidariedade

Funcionário de uma companhia de serviços médicos, Gilbert Quintal participava de um esforço coletivo de apoio a familiares de vítimas e doadores de sangue que iam ao Hospital da Universidade de Las Vegas, para onde foram enviadas 104 vítimas do ataque de domingo. 

“Todos nós fomos afetados pela tragédia e é bom ser capaz de fazer algo pela comunidade”, disse Quintal, que coordenava os trabalhos em um local que oferecia água, café, bolos e apoio aos que iam ao hospital. A poucos metros, Aaliysh Ouzts, de 19 anos, aguardava para doar sangue – procedimento que passou a ser feito com hora marcada a partir de ontem. 

Funcionária de um restaurante, ela disse que ainda tinha um sentimento de incredulidade em relação ao que ocorreu. “Como alguém pode fazer isso e atacar pessoas inocentes e indefesas?”, questionou. “Isso aconteceu muito perto de mim e quero fazer o que puder para ajudar.”

O presidente Donald Trump disse hoje que não sabe se Paddock estava ligado ao Estado Islâmico como reivindicou o grupo terrorista. Questionado por um repórter a bordo da Air Force One, na volta de sua viagem a Porto Rico, se ele acreditava que o atirador era um “soldado jihadista”, Trump foi seco. “Não tenho ideia.”

 

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