Atirador que atacou no Canadá queria viajar para combater na Síria, diz mãe

Atirador que atacou no Canadá queria viajar para combater na Síria, diz mãe

Atentado. Polícia conclui que Michael Zehaf-Bibeau agiu sozinho quando matou um soldado e invadiu o Parlamento, mas teve contato, no passado, com indivíduo investigado por terrorismo; criminoso havia solicitado passaporte para ir se juntar a jihadistas

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2014 | 02h01

O autor dos ataques que provocaram a morte de um soldado e troca de tiros dentro do Parlamento canadense na quarta-feira, Michael Zehaf-Bibeau, solicitou a emissão de um passaporte recentemente e pretendia viajar para a Síria, segundo informações dadas ontem à polícia de Ottawa por sua mãe, Susan Bibeau.

Autoridades disseram que o pedido estava em análise e Zehaf-Bibeau não integrava a lista de 90 pessoas consideradas "viajantes perigosos" por terem manifestado o desejo de se unir a combatentes jihadistas no exterior.

A polícia não encontrou nenhum indício que vincule as ações de quarta-feira ao ataque contra dois soldados que ocorreu em Quebec na segunda-feira, apesar de ambos terem sido praticados por jovens que manifestaram simpatia pelo radicalismo islâmico.

Bob Paulson, comissário da Real Polícia Montada Canadense - a Polícia Federal do país -, disse ontem em entrevista coletiva que um e-mail de Zehaf-Bibeau foi encontrado no computador de um suspeito de atividades terroristas. Mas ele ressaltou que a polícia ainda investiga a natureza da relação entre ambos. "Ainda não sabemos o que isso significa", observou. "Pode ser uma ligação tênue ou algo diferente."

Paulson afirmou que Zehaf-Bibeau não teve seu passaporte anulado, como chegou a ser divulgado na quarta-feira pela imprensa canadense, e disse que as autoridades estavam analisando sua solicitação. "Havia uma investigação em andamento para determinar se ele receberia o passaporte."

Família. A mãe de Zehaf-Bibeau enviou uma declaração à Associated Press na qual disse ter encontrado o filho na semana passada pela primeira vez em cinco anos. Em entrevista à agência, ela afirmou que chorava pelas vítimas do ataque, mas não por seu filho. "(Ele) estava perdido e não se adaptava", disse nas declarações por escrito. "Eu estou com raiva do meu filho, eu não entendo e parte de mim quer odiá-lo nesse momento."

Zehaf-Bibeau permaneceu por cerca de dez dias antes do ataque em um abrigo para sem-teto no centro de Ottawa. O local fica nas proximidades do Parlamento e do Memorial Nacional de Guerra onde ele matou a tiros o soldado Nathan Cirillo, de 24 anos.

Pessoas que conviveram com Zehaf-Bibeau nesse período disseram ao jornal Ottawa Citizen que ele se referia a supostos familiares líbios que estariam lutando no país de origem de seu pai, Bulgasem Zehaf, e manifestava posições críticas ao Canadá, onde nasceu.

Conversão. Recém-convertido ao islamismo, o atirador tem uma longa ficha criminal, com processos por uso de drogas, porte de armas, lesões corporais e roubo, segundo documentos judiciais obtidos pela Associated Press.

Relatos de moradores do abrigo indicam que Zehaf-Bibeau tinha um estado mental perturbado e dizia que ele deveria rezar cinco vezes por dia porque o mundo acabaria em breve.

No período em que ficou no abrigo, o atirador se aproximou de dois homens, com os quais conversava com frequência sobre o islamismo, de acordo com os relatos divulgados na imprensa canadense.

O comissário Paulson disse ontem que não foram encontrados indícios de que moradores do abrigo tenham colaborado com os ataques de quarta-feira.

A polícia concluiu que Zehaf-Bibeau agiu sozinho quando atirou no soldado que guardava o Memorial Nacional de Guerra e entrou com um fuzil no edifício do Parlamento canadense, onde estava o primeiro-ministro do país, Stephen Harper. A ativista paquistanesa e prêmio Nobel da Paz Malala Yousafzai estava no país para uma homenagem, mas não na região atacada por Zehaf-Bibeau.

O criminoso trocou cerca de 30 tiros com os guardas do prédio, até ser morto por Kevin Vickers, o oficial responsável pela segurança do Parlamento e normalmente cumpre uma função cerimonial de declarar aberta cada sessão.

Ontem, ele foi aplaudido de pé pelos parlamentares quando entrou no plenário vestindo as roupas tradicionais e carregando o cetro dourado que simboliza a autoridade da instituição.

Terror. Os ataques de quarta-feira provocaram pânico em Ottawa e desencadearam uma busca de dez horas por potenciais cúmplices de Zehaf-Bibeau.

Durante esse período, o centro da cidade foi isolado e funcionários do Parlamento orientados a permanecer trancados em suas salas.

O assassinato de dois soldados em um espaço de três dias levantou a suspeita de que o Canadá passou a ser alvo de radicais em razão de sua adesão à coalizão que bombardeia posições do Estado Islâmico na Síria e no Iraque.

Depois de o país ter anunciado sua decisão, no início do mês, um porta-voz da organização exortou seus combatentes a matarem cidadãos canadenses quando tivessem a oportunidade, independentemente de serem civis ou militares.

Na entrevista de ontem, Paulson e outros policiais afirmaram que um de seus principais desafios é entender o processo de radicalização de jovens no país. A identificação das razões que provocam a mudança são essenciais para definição de medidas que possam previr a radicalização e eventuais ataques, ressaltaram.

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