Atitude de Israel implica riscos

Interrupção de negociações com a Autoridade Palestina teve aprovação tácita dos EUA, que queriam saída digna

Jodi Rudoren,

26 de abril de 2014 | 02h08

Há menos de um mês, Israel estava na mira do secretário de Estado americano John Kerry, acusado de sabotar o processo de paz ao insistir na construção de colônias na Cisjordânia e não cumprir a promessa de libertar prisioneiros palestinos detidos há muito tempo. Mas quando Israel suspendeu na quinta-feira as negociações, que já estavam em ponto morto, tomou a decisão com apoio tácito de Washington. O que propiciou a um governo não muito empenhado na busca da paz uma saída estratégica que envolve poucos riscos.

Frustrado com o impasse das negociações de paz, o presidente Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, agiu de modo inteligente esperando fortalecer sua posição na mesa de negociações e também junto à população. Adotou as medidas necessárias para aderir a 15 convenções internacionais, ameaçou dissolver seu governo e finalmente firmou um acordo com o Hamas, grupo militante islâmico considerado terrorista pelo Ocidente.

As medidas adotadas por Abbas provocaram críticas - e críticas por parte de Washington. Se Abbas estava tentando desmascarar Israel e forçar o país a fazer concessões na mesa de negociações, ele pode, ao contrário, ter melhorado, inconscientemente, a posição israelense.

"Ele prestou um enorme favor a Bibi", disse Giora Eiland, ex-assessor de Segurança Nacional israelense . "Como estamos agora nesta troca de acusações é mais fácil para ele dizer que 'a culpa não é nossa, veja o lado do nosso parceiro potencial'".

O ex-assessor acrescentou também que "Abbas, por meio do seu próprio comportamento, acabou por dar a entender que é uma pessoa muito radical e jamais firmará um acordo conosco".

Agora, o paradoxo enfrentado pelos envolvidos no processo de paz é que essa reconciliação prenuncia uma única liderança palestina, pela primeira vez em anos, capaz de falar numa única voz e, pelo menos em teoria, melhor posicionada para conseguir apoio a um acordo com Israel na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Mas a rejeição do Hamas expressada por Israel e pelo Ocidente poderá invalidar todos os esforços para pôr fim à divisão e possivelmente moderar a posição do Hamas.

A curto prazo, Netanyahu evitou uma crise dentro do seu governo, uma vez que vários membros prometeram se retirar caso ele libertasse mais prisioneiros, congelasse a construção de assentamentos ou se afastasse das conversações enquanto houvesse esperanças. O acordo com o Hamas, considerado também por EUA e Europa uma organização terrorista, permitiu a Netanyahu, pelo menos temporariamente, evitar uma indignação internacional e apresentou-se em várias emissoras de TV na quinta-feira como uma vítima.

Mas o colapso das negociações que Kerry e outros consideram de último recurso, com vistas a uma solução de dois Estados neste conflito de difícil solução deixa Israel numa posição precária. As conversações ajudaram a controlar a violência na Cisjordânia e contiveram um boicote europeu de produtos e instituições israelenses.

Netanyahu se depara agora com um presidente palestino fortalecido e livre para usar a condição de Estado observador para ter acesso a outras instituições internacionais, incluindo tribunais em que Israel poderá ter de responder por crimes de guerra.

A AP poderá entrar em colapso se os EUA retirarem a ajuda financeira numa resposta às medidas adotadas por Abbas e à reconciliação com o Hamas, o que deixaria Israel responsável pelos seus cidadãos e intensificaria as críticas a sua ocupação.

Na falta de um processo de paz, a ameaça de um Estado binacional em que os árabes poderão em breve superar em número os judeus torna-se mais forte. "Não acho que Israel deseje que o status quo continue", disse Shlomo Brom, general aposentado e membro do Instituto de Estudos de Segurança Nacional em Tel-Aviv. "Netanyahu participou dessas negociações não porque esperava resultados. Ele desejava livrar-se da pressão potencial dos americanos e europeus. Agora, terá de pensar numa nova artimanha".

É o mesmo caso do presidente Abbas. De acordo com analistas palestinos, seu acordo com o Hamas é mais uma tática de pressão do que uma mudança de estratégia e, segundo seus cálculos, o acordo vai malograr, como ocorreu com os outros três assinados dentro dos sete anos que durou a cisão com o Hamas. Agora, Abbas tem cinco semanas para formar um governo de tecnocratas independentes e marcar eleições dentro de seis meses.

O que não ficou determinado no acordo desta semana é como o Hamas e o Fatah, partido que domina a OLP e a AP, combinarão seus serviços de segurança na Cisjordânia e em Gaza e reformularão a governança dos seus territórios. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É editor de Política e Assuntos Internacionais de 'Slate'

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