EFE/Andrés Cristaldo Benítez
EFE/Andrés Cristaldo Benítez

Ativista diz que Plano Condor previa o uso de uma ‘bomba atômica’ para a América do Sul

Operação completa 40 anos em meio a lembranças de muitos casos de tortura, violência e impunidade

O Estado de S. Paulo

25 de novembro de 2015 | 15h57

ASSUNÇÃO - O Plano Condor, que serviu para coordenar a repressão nas ditaduras da América do Sul nas décadas de 1970 e 1980, foi fundado há exatamente 40 anos, completados nesta quarta-feira, 25, e previa o uso de uma “bomba atômica” para a região, disse o ativista paraguaio Martín Almada.

Ele explicou que a Operação Condor causou “cerca de 100 mil mortes” na América do Sul entre execuções e desaparecimentos forçados, um número similar às vítimas dos ataques nucleares nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 1945.

A Operação nasceu em 25 de novembro de 1975 em Santiago de Chile, em uma reunião clandestina entre representantes da Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia, em meio a Guerra Fria, polarizada por EUA e União Soviética.

Os americanos queriam conter possíveis revoluções comunistas como a Cubana (1959) e “implantar na América do Sul um modelo neoliberal, selvagem e criminal”, afirmou Almada. Em 1992, ele descobriu em uma delegacia na Grande Assunção os chamados “Arquivos do Terror”, mais de 700 folhas que documentam o papel de liderança do governo dos EUA no Plano Condor.

Os EUA formaram na Escola das Américas, localizada no Panamá, vários militares que se tornariam torturadores e líderes nos regimes militares da América do Sul, como uma forma de assegurar a eficácia da repressão.

No Paraguai, o encarregado das instruções de técnicas de tortura foi o coronel americano Robert K. Thierry, que chegou ao país em 1956 e instalou seu centro de operações na Diretoria de Assuntos Técnicos, conhecida como “A Técnica” e localizada no centro de Assunção.

Neste prédio, Martín Almada fundou quase meio século depois o Museu das Memórias, que faz uma viagem pelo horror das torturas sofridas pelos presos durante a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), a mais duradoura da região.

“A ditadura paraguaia instaurou os primeiros centros móveis de tortura, veículos policiais que transportavam os presos para as delegacias. Nós os chamávamos de 'Caperucitas Rojas', e só o fato de vê-los já causava terror”, relatou.

Almada se lembra de uma vez em que os presos “tiveram as unhas dos pés e das mãos arrancadas e recebiam choques elétricos aplicados nos órgãos genitais” para obrigá-los a confessar. Outras táticas de tortura consistiam em deitar os detidos em camas de ferro eletrificadas ou em banheiras cheias de fezes e urina.

Em certas ocasiões, os repressores chamavam os parentes dos presos por telefone para fazer com que eles escutassem os gritos de dor durante as torturas, contou o ativista, que foi vítima de tratamentos desumanos durante várias semanas no mesmo local em que hoje fica o museu.

“A função das torturas era, por um lado, arrancar informação dos presos e, por outro, promover a repressão e causar medo na população”, afirmou Almada.

E apesar de terem cometido crimes contra a humanidade durante as ditaduras da América do Sul, muitos repressores ainda estão impunes. “A maior parte dos militares que participaram do Plano Condor nunca foram julgados. Além disso, em países como o Chile, o ex-presidente Ricardo Lagos aprovou leis que impedem a investigação de crimes cometidos durante a ditadura chilena (1973-1990) durante quase 50 anos”, denunciou Almada. /EFE

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