Sergei Supinsky / AFP
Sergei Supinsky / AFP

Ativista belarusso desaparecido é encontrado morto em um parque na Ucrânia

A polícia iniciou uma investigação depois que Vitali Shishov desapareceu em Kiev e foi encontrado morto em um parque perto de sua casa

Anton Troianovski e Megan Specia, The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2021 | 15h25

MOSCOU - Um ativista opositor do governo belarusso foi encontrado morto em um parque perto de sua casa na capital ucraniana, Kiev, nesta terça-feira, 3, e a polícia disse ter iniciado uma investigação para saber se foi um assassinato ou suicídio.

O ativista, Vitali Shishov, desapareceu na segunda-feira após sair para o trabalho pela manhã, segundo seus colegas, que acusam as autoridades belarussas de matá-lo. A polícia de Kiev disse que Shishov foi encontrado enforcado no parque e que sua investigação estava considerando a possibilidade de a morte ter sido um "assassinato mascarado de suicídio".

"O quadro completo dos acontecimentos será confirmado após o interrogatório das testemunhas, da análise das gravações de vídeo" e outras etapas da investigação, disse a polícia.

Aleksander Lukashenko, líder autoritário de Belarus que está no poder desde 1994, há muito reprime a dissidência em seu território e prendeu milhares de manifestantes após protestos em larga escala contra seu governo no ano passado. Agora, os acontecimentos das últimas semanas sugerem que ele também está intensificando sua campanha contra o número crescente de exilados belarrussos no exterior.

Em maio, Lukashenko forçou a aterrissagem de um avião de passageiros com um ativista belarrusso exilado a bordo e mandou prendê-lo. No domingo, uma velocista olímpica do país buscou proteção em um aeroporto de Tóquio enquanto autoridades tentavam mandá-la para casa à força. Ela disse temer por sua segurança depois de criticar seus treinadores e o comitê olímpico nacional do país.

Shishov era o diretor da Casa Belarussa na Ucrânia, uma organização que ajudou pessoas que tentavam escapar da repressão no país após os protestos contra o governo. Ele tinha 26 anos, de acordo com as notícias locais.

Embora as circunstâncias em torno da morte de Shishov permanecessem obscuras, os críticos de Lukashenko rapidamente apontaram o dedo para seu regime autoritário.

"É preocupante que aqueles que fugiram de Belarus ainda não estejam seguros", disse Svetlana Tikhanovskaya, a líder da oposição pró-democracia do país, que fugiu no ano passado após alegar vitória em uma eleição presidencial.

Shishov desapareceu depois de sair para uma corrida às 9h perto de sua casa em Kiev na segunda-feira, disseram colegas da instituição em um comunicado. Desde que fugiu para a Ucrânia no outono passado, afirma o comunicado, ele organizou ajuda para outros exilados, encabeçou protestos contra Lukashenko e fez petições às autoridades ucranianas para apoiarem a diáspora belarrussa.

"A morte ocorre em meio a uma repressão inaceitável de Belarus contra a sociedade civil", disse a Embaixada dos Estados Unidos em Kiev no Twitter. "Esperamos uma investigação completa e minuciosa pelas autoridades ucranianas para estabelecer suas causas e circunstâncias."

Na semana passada, de acordo com suas postagens no Facebook, Shishov ajudou a organizar um comício em Kiev, marcando o 31º aniversário da independência de Belarus da União Soviética.

Seus colegas disseram que ele acreditava que estava sendo seguido e que apoiadores em Belarus o haviam alertado sobre possíveis ameaças à sua vida. Ele respondeu brincando que, se algo acontecesse com ele, isso poderia ajudar sua organização a obter a atenção tão necessária.

"Vitali enfrentou esses avisos com estoicismo e humor", disse a organização. "Não há dúvida de que esta foi uma operação organizada por espiões para liquidar um belarusso que era realmente um perigo para o regime."

Shishov, da cidade bielorrussa de Gomel, perto da fronteira entre a Ucrânia e a Rússia, chegou a Kiev depois de participar de manifestações antigovernamentais, disseram seus colegas. Os protestos do ano passado eclodiram depois que Lukashenko reivindicou uma vitória esmagadora em uma eleição presidencial que foi amplamente considerada fraudulenta.

Para muitos exilados, a Ucrânia, que tem uma política de isenção de vistos para os belarussos, é um ponto de trânsito no caminho para países da União Europeia como a Polônia e a Lituânia. Mas Shishov decidiu ficar e se tornou parte da crescente comunidade de ativistas do país em Kiev. Ele participou de manifestações de solidariedade na Praça da Independência, no centro da capital ucraniana, e tentou ajudar outros recém-chegados a encontrar trabalho e alojamento.

"Ele era uma pessoa calma e equilibrada", disse Alena Talstaya, líder do Razam, outro grupo de oposição belarusso em Kiev. "Ele disse que sua principal esfera de atividade era ajudar os refugiados."

O fluxo de exilados para a Ucrânia aumentou nas últimas semanas, disse Talstaya, em meio a uma nova onda de buscas e prisões dirigidas contra jornalistas e ativistas de direitos humanos. Lukashenko disse no mês passado que seus serviços de segurança estavam montando uma "operação de limpeza" contra "bandidos e agentes estrangeiros" apoiados pelo Ocidente, com a intenção de derrubá-lo.

Como resultado, albergues, hotéis e quartos vagos de amigos na Ucrânia se encheram de belarrussos que fogem de uma possível prisão, disse Talstaya. Mesmo no exterior, no entanto, os bielorrussos não estão completamente seguros.

"Esconder-se é impossível e sem sentido", disse Talstaya. "Nenhuma pessoa pode viver com medo permanente."

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