Ativista cego chinês desafia Pequim e foge após 19 meses em prisão domiciliar

Afronta. Depois de escapar de cerco à sua casa com ajuda de dissidentes, Chen Guangcheng afirma estar na capital; EUA não se manifestam sobre rumores de que fugitivo, sentenciado a mais de 4 anos por perturbar o trânsito, estaria na embaixada americana

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2012 | 03h02

Mantido sob estrita vigilância em sua casa havia 19 meses, um dos mais proeminentes ativistas políticos da China conseguiu escapar no domingo à noite e esconder-se em um lugar desconhecido da capital, no mais recente episódio a constranger as autoridades de Pequim.

Organizações de defesa de direitos humanos disseram que Chen Guangcheng foi deixado em um local "seguro", o que estimulou rumores de que ele estaria na Embaixada dos EUA em Pequim. Se a informação for confirmada, esse será o primeiro caso de um dissidente político chinês que busca abrigo na representação diplomática americana desde a repressão aos protestos na Praça Tiananmen, em 1989.

Em vídeo divulgado ontem, Chen Guangcheng pediu diretamente ao primeiro-ministro Wen Jiabao que intervenha a seu favor, proteja sua família e puna as autoridades da Vila Dongshigu, na Província de Shandong, responsáveis por sua detenção. Cego e advogado autodidata, Chen ganhou notoriedade ao defender milhares de mulheres vítimas de abusos cometidos em nome da política de controle de natalidade em sua região, incluindo abortos e esterilizações forçadas. Em junho de 2006, ele foi sentenciado a 4 anos e 3 meses de prisão sob a acusação de "perturbar o trânsito".

O ativista cumpriu a pena até o fim, mas não ganhou liberdade: foi posto em prisão domiciliar e proibido de receber visitas, falar ao telefone ou usar a internet. A detenção era considerada ilegal por advogados e entidades de defesa dos direitos humanos, que ressaltavam o fato de ela não ter base em nenhuma decisão judicial ou acusação formal contra Chen. Apesar disso, a prisão tinha o apoio implícito do governo central, que nunca interveio no caso.

A fuga de Chen foi anunciada poucos dias antes do Diálogo Econômico e Estratégico, que reunirá em Pequim autoridades chinesas e americanas, entre as quais a secretária de Estado, Hillary Clinton. Se a informação de que o ativista está na representação diplomática dos EUA for confirmada, isso agravará a tensão no relacionamento entre os dois países e colocará Washington em uma situação delicada.

Para Pequim, o caso representa mais um episódio de constrangimento político, depois do recente afastamento de um dos principais líderes do Partido Comunista, Bo Xilai, em um caso que envolve acusações de homicídio, abuso de poder e corrupção.

O escândalo do ex-chefe do Partido em Chongqing veio à tona quando seu braço direito, Wang Lijun, se refugiou no Consulado dos EUA em Chengdu, capital da Província de Sichuan. Wang deixou o local escoltado por autoridades de Pequim e está preso na capital chinesa.

Nos 19 meses que durou a prisão de Chen Guangcheng, a Vila Dongshigu foi cercada por dezenas de capangas, que impediam a aproximação de qualquer estranho. Vários chineses tentaram visitá-lo, sem sucesso. Jornalistas estrangeiros eram rechaçados, muitas vezes com uso de violência. Até o ator britânico Christian Bale, estrela dos últimos filmes da série Batman, foi agredido pelos seguranças quando tentou visitar Chen em dezembro.

Família. Na gravação divulgada ontem, o ativista pediu proteção para seus parentes e disse temer que eles sejam alvo de "vingança insana" dos capangas locais - sua mulher, seus filhos e sua mãe continuam na Vila Dongshigu.

Vários de seus parentes foram detidos ontem, incluindo seu irmão mais velho, Chen Guangfu, seu sobrinho Chen Kegui e seu primo Chen Guangcun. Seguranças cercaram a casa do ativista e tomaram as ruas da vila rural. "Chen Guangcheng e sua família estão em risco", afirmou o pesquisador para Ásia da Human Rights Watch, Phelim Kine. "Sua mulher, seus filhos e sua mãe estão em uma situação extremamente vulnerável", observou. "Eles já foram punidos brutalmente só por tentarem sair de casa em busca de comida ou cuidados médicos, portanto é bastante provável que os capangas reajam com brutalidade à fuga."

"Nós esperamos que depois de a voz de Chen Guangcheng ter sido ouvida, os líderes máximos da China permitam que ele e sua família tenham liberdade como cidadãos chineses", disse ao Estado Bob Fu, presidente da entidade China Aid, com sede nos EUA. Segundo ele, a fuga foi feita com a ajuda de vários ativistas. Segundo Fu, a intenção de Chen é permanecer em seu país. "Quando ele escapou de sua casa, ele disse que pretendia lutar até o fim por sua liberdade e a de sua família dentro da China", disse Fu, que disse falar com Chen por telefone.

A blogueira He Peirong dirigiu o carro que levou Chen da Província de Shandong a Pequim. Na manhã de ontem, ela declarou à Associated Press que Chen planejou a fuga durante meses, deitando em sua cama por longos períodos para que os guardas não suspeitassem de nada, caso não vissem movimento dentro da casa. À tarde, ela havia sido levada por agentes de segurança e chamadas a seu celular não eram atendidas.

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