Ativista cego muda de ideia e diz que quer deixar China no avião de Hillary

Turbulência diplomática. Depois de anunciar que abdicava da proteção da diplomacia americana e de saber que mulher foi ameaçada de morte, Chen Guangcheng afirma que gostaria de ir para os Estados Unidos na companhia da secretária de Estado

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2012 | 03h02

Poucas horas depois de deixar a Embaixada dos EUA em Pequim na quarta-feira, o ativista cego Chen Guangcheng telefonou a uma comissão do Congresso americano afirmou que ele e sua família gostariam de sair da China no mesmo avião da secretária de Estado Hillary Clinton, que está na capital chinesa para reuniões de cúpula entre os dois países agendadas antes do impasse em torno do futuro do advogado autodidata.

Chen saiu da proteção diplomática dos EUA na quarta-feira, depois de manifestar o desejo de reunir-se com sua família e permanecer na China. No entanto, logo depois de encontrar sua mulher, Yuan Weijing, e os dois filhos do casal em um hospital de Pequim, ele mudou de ideia e passou a afirmar que gostaria de deixar o país e ir para os EUA.

Yuan disse a ele que havia sido mantida amarrada a uma cadeira por dois dias pela polícia, depois que os guardas que vigiam sua casa na Província de Shandong descobriram que Chen havia escapado da prisão domiciliar em que era mantido havia 19 meses sem julgamento formal. Segundo relato do ativista, eles ameaçaram espancá-la até a morte e instalaram cercas elétricas e sete câmeras de vigilância no interior da residência - até então, elas estavam apenas do lado de fora.

"Eu fiquei muito preocupado. Se eles nos mandassem de volta para casa, eles nos colocariam em uma jaula", declarou Chen à CNN. Em entrevista a Melinda Liu, da Newsweek, ele afirmou que foi pressionado por funcionários americanos a deixar a embaixada o mais rápido possível.

O acordo para sua saída foi anunciado no mesmo dia da chegada de Hillary a Pequim. A disposição inicial de permanecer no país mudou depois que ele falou com a mulher e amigos e teve um cenário mais preciso da situação de ativistas na China. "Eu não tinha nenhuma informação, não podia receber telefonemas de meus amigos, eu estava isolado", disse ele a Liu. "Aí, recebi a informação sobre a ameaça de que minha mulher seria mandada de volta para Shandong caso eu não saísse da embaixada. Por isso, saí." Na entrevista à CNN, Chen fez um apelo direto ao presidente americano, Barack Obama: "Por favor, faça tudo o que puder para tirar nossa família daqui".

A mulher de Chen, Yuan Weijing, também pediu ajuda. "Eu sei que a relação sino-americana engloba uma série de questões. No entanto, a realidade sobre a nossa família é que nossas vidas estão obviamente em perigo. Se nós ficarmos aqui ou voltarmos para Shandong, nossas vidas podem estar em risco. Nessas circunstâncias, eu espero que o governo dos EUA nos proteja e nos ajude a deixar a China, com base em seus valores de proteção dos direitos humanos."

A maneira como as autoridades de Washington administraram o caso já está sendo explorada politicamente na campanha presidencial dos EUA. Richard Williamson, conselheiro do candidato republicano Mitt Romney, afirmou ontem que a defesa dos direitos humanos tem uma posição secundária na gestão de Obama, o que teria sido demonstrado na negociação em torno de Chen.

A China e o destino do ativista cego se tornaram dois dos principais temas da corrida presidencial. Qualquer ameaça a sua liberdade ou segurança será explorada à exaustão pelos opositores de Obama.

A porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, reconheceu ontem que Chen mudou de posição e agora quer deixar a China. "Nós precisamos conversar com eles para ter uma melhor percepção do que eles querem e considerar suas opções", declarou.

A grande dúvida é saber se o governo chinês estará disposto a renegociar o futuro de Chen. Sem a concordância das autoridades de Pequim, é virtualmente impossível retirar o ativista e sua família do país.

O embaixador dos EUA na China, Garry Locke, observou que o acordo fechado com o governo chinês para a saída de Chen da embaixada prevê sua mudança para outra região da China, distante de seus algozes de Shandong. Segundo ele, o ativista teria oportunidade de estudar em uma faculdade de Direito, com os custos pagos pelo governo. Além disso, Pequim se comprometeu a ouvir suas queixas sobre o tratamento violento que recebeu dos líderes locais de Shandong.

Condenação. Antes da detenção ilegal, Chen havia cumprido pena de 4 anos e 3 meses de prisão por atrapalhar o tráfego, acusação que advogados dizem ter sido fabricada. "Eu posso dizer, de maneira inequívoca, que ele nunca foi pressionado a sair", declarou Locke em entrevista coletiva. "Ele deixou muito, muito claro desde o começo que queria ficar na China, que ele queria ser parte da luta para melhorar os direitos humanos na China e ganhar maior liberdade e democracia para o povo da China", ressaltou.

No início da madrugada de hoje (horário de Pequim), Chen continuava no Hospital Chaoyang, na capital chinesa, acompanhado da mulher e dos dois filhos. Amigos que tentaram visitá-lo eram barrados na entrada do edifício. Mesmo diplomatas e funcionários do governo dos EUA foram impedidos de vê-lo. Um simpatizante de Chen, que usava óculos escuros semelhantes aos do ativista, era filmado pela polícia.

Segundo a porta-voz do Departamento de Estado, autoridades americanas falaram com Chen por telefone durante o dia de ontem e se reuniram com sua mulher fora do hospital.

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