Ativista de Mianmar quer conversar com junta militar

Em discurso a milhares de birmaneses, Aung San Suu Kyi diz querer acertar suas diferenças com os governantes do país

EFE e BBC, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2010 | 00h00

YANGUM

A líder da oposição ao governo de Mianmar e Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, defendeu ontem a liberdade de expressão e a cooperação com as forças democráticas em seu primeiro comício após ser libertada de sete anos e meio de prisão domiciliar, em Yangum, capital do país. Durante um discurso a milhares de pessoas, a ativista de direitos humanos chamou a junta militar que governa o país para discutir e superar as diferenças.

Com as palavras ditas na rua da sede de seu partido, a Liga Nacional pela Democracia (LND), Aung inaugurou seu retorno à atividade política, o que pode fazer ressurgir o conflito com os militares que a mantiveram presa.

"A liberdade de expressão é básica dentro da democracia. Quero escutar a voz do povo e, depois, decidiremos o que queremos fazer", afirmou, diante de cartazes com mensagens de apoio. A ativista passou 15 dos últimos 21 anos afastada da vida pública por lutar pela democracia em Mianmar.

"Quero trabalhar com todas as forças democráticas", disse, em referência às formações de oposição que disputaram as eleições realizadas há uma semana.

Um dos partidos é uma cisão da LND, que pediu o boicote à votação por considerá-la desenhada para perpetuar os generais no poder que ocupam desde 1962. Em 1990. Aung guiou seu partido a uma vitória eleitoral que jamais foi reconhecida pelos militares. "Democracia é quando o povo exerce o controle sobre o governo. Sempre aceitarei este tipo de controle", disse.

O público do discurso variou entre trabalhadores pobres e de classe média, monges budistas e jovens estudantes. Aung estimulou a população a participar de forma ativa na política.

A alguns metros da sede do partido dissolvido, estavam estacionados uma limusine da Embaixada dos EUA e carros oficiais de diversas missões diplomáticas da União Europeia (UE) e de países asiáticos.

Aung havia se dirigido ao público pela primeira vez minutos após de ter sido libertada no sábado e fez ontem um aparente gesto de reconciliação com o general Than Shwe, presidente da junta militar que chegou a proibir a pronúncia do nome ativista em sua presença. "Não tenho nenhum antagonismo em relação às pessoas que me mantiveram em prisão domiciliar. Os agentes de segurança me trataram bem e quero pedir que também tratem bem o povo."

PARA LEMBRAR

Militante ganhou Nobel da Paz em 1991

Há 18 meses, Aung San Suu Kyi, de 65 anos, cumpria prisão por supostamente ter se encontrado com um cidadão americano em sua casa, onde já cumpria prisão domiciliar. A junta militar que governa o país prometia soltar a ativista em maio, mas em agosto fez a acusação que a manteve detida até o sábado. Sua libertação ocorreu uma semana depois das primeiras eleições em 20 anos em Mianmar, que foram condenadas pelo Ocidente por ter a participação somente de países ligados à junta militar. Cerca de 3 mil birmaneses esperavam Aung em frente à sua casa para comemorar sua libertação. Ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1991, a ativista passou 15 dos últimos 21 anos detida. Líderes mundiais como o presidente americano, Barack Obama, a chanceler alemã, Angela Merkel e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon louvaram sua libertação.

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