Ativista defende criação de dois Estados palestinos

"Os palestinos da Cisjordânia estão cheios do tipo de violência que ocorreu em Gaza", diz diretor do Grupo Palestino de Monitoramento dos Direitos Humanos

Agencia Estado

19 Junho 2007 | 11h05

Para o diretor do Grupo Palestino de Monitoramento dos Direitos Humanos, Bassem Eid, as diferenças entre os palestinos de Gaza e Cisjordânia permitiria a existência de dois Estados palestinos, um na Faixa de Gaza e outro na Cisjordânia. Ele falou ao Estado: Qual a saída para o movimento palestino após a vitória do Hamas em Gaza?Convocar novas eleições. O que aconteceu em Gaza causou um prejuízo enorme para a reputação dos palestinos. Mostrou que não estamos unidos e que ficou praticamente impossível fazer Hamas e Fatah sentarem na mesma mesa.O sr. acredita numa solução de três estados?Gaza é muito diferente da Cisjordânia. Culturalmente, economicamente e mesmo politicamente. Todo o esforço dos últimos anos foi para descobrir como reunir, em um só Estado, Gaza e Cisjordânia. Acho que os dois podem muito bem viver separadamente. Mesmo com a Cisjordânia não tendo saída para o mar?A Jordânia é muito próxima à Cisjordânia. Isso não seria problema.Estamos mais próximos da separação de Gaza e Cisjordânia do que de um estado palestino unificado?Acho que os palestinos da Cisjordânia estão cheios do tipo de violência que ocorreu em Gaza. Só agora eles estão vendo as enormes diferenças entre eles e os militantes do Hamas. A separação é possível.Mas isso não enfraqueceria o movimento palestino?Totalmente. Mas essa é uma decisão que Gaza deve tomar e eles têm o direito de decidir.O sr. acredita que a violência se espalhe para a Cisjordânia?Não porque lá não existem tantas comunidades religiosas, há menos fanatismo e o Hamas é bem mais fraco na Cisjordânia.O fato de o Hamas estar isolado em Gaza tornou mais fácil qualquer retaliação contra o grupo? Acho que os israelenses devem estar rindo do que está acontecendo. Não tenho dúvidas de que eles continuarão a apoiar o Fatah ou qualquer nome indicado por Abbas. É claro que ficou mais fácil atacar o Hamas sem afetar o Fatah. E esse é o plano da comunidade internacional. Israel está nesse momento discutindo a liberação das receitas fiscais para fortalecer Abbas contra o Hamas. É possível Israel fechar as fronteiras de Gaza e encurralar o Hamas?Espero que isso não aconteça porque existe 1,5 milhão de pessoas vivendo em Gaza, a maioria civis e inocentes que não tem nada a ver com o caso. Existe em Gaza espaço para algum movimento fundamentalista que ameace o Hamas? Israel está exercendo um grande controle na fronteira, o que impede a entrada de armamento e de militantes. A resposta para essa pergunta depende de como o Egito vai controlar sua fronteira. Qualquer apoio de membros da Al-Qaeda só poderia entrar pela fronteira do Egito com Gaza. O que significaria para a região um Estado islâmico em Gaza?Não acredito que Israel permita a instalação de um Estado islâmico em Gaza. Os próprios habitantes de Gaza não aceitariam viver em um Estado islâmico. Portanto, um estado islâmico em Gaza teria vida curta. Provavelmente, com o tempo, os habitantes de Gaza começariam sua própria intifada, minando o poder do Hamas. O que Abbas queria quando declarou estado de emergência?Às vezes eu tenho vontade de rir das decisões de Abbas. Ele é uma pessoa fraca, não tem a menor idéia do que está acontecendo nos Territórios Ocupados, especialmente em Gaza. A fraqueza de Abbas é que nos levou a essa situação. Quando o conflito começou, há seis meses, ele não levou a sério as ameaças do Hamas. Agora, a coisa está fora de controle e ele não tem condições de pôr as coisas em ordem.Ele ainda tem legitimidade para governar os palestinos?Ele está perdendo cada vez mais apoio. Por isso, as eleições seriam a única alternativa viável para sair do caos que estamos vivendo. Não é arriscado o Hamas ganhar de novo?Acho que não, desde que Abbas não seja candidato. O Fatah teria de encontrar um novo nome. Seria Salam Fayyad?De jeito nenhum! Ele é um bom economista, mas não é político. Fayyad só é popular entre a comunidade internacional, não entre os palestinos. Qual seria a melhor opção?Os palestinos precisam de um nome como Marwan Barghouti (militante do Fatah condenado a cinco penas de prisão perpétua, está preso em Israel). Os israelenses já admitiram libertá-lo, caso o nome de Barghouti contribua para a paz.O sr. sempre defendeu que a guerra civil entre os palestinos poderia solucionar o impasse interno. O sr. acha que estamos próximos de uma solução?Eu sempre acreditei que era preciso derramamento de sangue para que o problema fosse resolvido. Nos últimos quatro dias, pelo menos 100 pessoas morreram. Hoje, estamos chegando ao fim de uma guerra civil. Não tenho tanta certeza se estamos perto de uma solução para o caso palestino, mas o conflito terminou.

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