Ativista em greve de fome há dez anos é criticada por anunciar noivado

Indiana que protesta contra poderes especiais dados ao Exército está noiva de um cidadão britânico.

BBC Brasil, BBC

21 Setembro 2011 | 15h55

Defensores de uma indiana que está em greve de fome há mais de dez anos a criticaram por ela ter revelado que estava noiva.

Considerada a pessoa em greve de fome há mais tempo no mundo, Irom Sharmila Chanu, de 39 anos, iniciou seu protesto em 2000, após o assassinato de dez jovens da região nordeste do país, Manipur, onde ela mora.

Os jovens foram supostamente assassinados por um grupo paramilitar e ela resolveu protestar contra as mortes e contra uma lei que dá poderes especiais às Forças Armadas.

Segundo o correspondente da BBC na Índia, Subir Bhaumik, desde que começou o jejum, Sharmila virou um ícone em Manipur.

Logo que começou sua greve de fome, ela foi presa e acusa de tentativa de suicídio. E desde então, é obrigada a se alimentar por uma sonda em um hospital, sob custódia da Justiça da Índia.

Noivo britânico

Segundo o jornal The Times of India, Sharmila é o assunto de um debate intenso em Manipur desde que confessou a um grupo de jornalistas que está apaixonada por um cidadão britânico que vive no estado indiano de Goa.

Em uma entrevista a diversos jornalistas, ela contou sobre seu namoro com o escritor e ativista Desmond Coutinho, de 48 anos. Eles vêm trocando cartas no último ano, desde que se conheceram em uma audiência em que ela teve de comparecer.

Durante a troca de correspondência, Coutinho propôs casamento e ela aceitou. Mas a ativista deixou claro que só vai se casar quando conseguir o fim da lei que dá poderes especiais às Forças Armadas.

Para os simpatizantes da ativista, a publicação da entrevista em que Sharmila anuncia o noivado é uma manobra do governo de desviar atenção para a causa que ela defende.

"Não somos contra ela levar uma vida normal. Pessoalmente, acho que se trata de uma tentativa do governo e dos meios (de comunicação) de criar divisões", disse Helam Haokip, um dos líderes ativistas locais.

Um jornal que publicou as declarações da ativista foi proibido em Manipur pelo grupo Apunba Lup, uma coalizão formada por 13 organizações importantes que representam a sociedade civil.

Tratamento 'rude'

Na entrevista, Sharmila reclamou que seus defensores, insatisfeitos com o namoro, se comportaram de forma rude com seu noivo.

Para ela, a rejeição a Coutinho não se deve apenas ao argumento dos simpatizantes de que seria uma manobra do governo, mas também por fatores sociais.

"Ele é de Goa, mas é um cidadão britânico. Por isso estão contra o relacionamento", disse a ativista ao jornal Calcutta Telegraph.

Muitos de seus defensores já protestaram contra o jornal, por ter dado mais importância ao relacionamento do que à campanha da ativista.

Longa greve

O irmão de Sharmila conta que ela começou seu protesto logo depois do assassinato dos jovens.

"Os assassinatos ocorreram no dia 2 de novembro de 2000. Era uma quinta-feira e Sharmila sempre jejuava na quinta-feira, desde criança", disse à BBC Irom Singhajit Singh. "Naquele dia ela estava de jejum e simplesmente decidiu continuar."

O Estado indiano de Manipur tem uma população de cerca de 2,5 milhões de pessoas e uma grande presença do Exército, de paramilitares e da polícia, que combatem pelo menos 12 grupos insurgentes desde 1980.

O governo da Índia alega que a lei que dá poderes especiais às Forças Armadas para deter pessoas sem julgamento e também imunidade mesmo depois de casos de assassinatos de civis é necessária.

Segundo o governo, a lei promulgada em 1958 é necessária para restaurar a normalidade no Estado. Mas os grupos representantes da sociedade civil afirmam que esta lei causou grandes violações aos direitos humanos por parte de soldados e funcionários da polícia. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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