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Ativista gay é espancado até a morte em Uganda

Kato foi morto a golpes de martelo; apesar da brutalidade da ação, polícia nega ser um[br]crime de ódio

Jeffrey Gettleman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2011 | 00h00

Um ativista ugandense gay, cuja foto foi publicada recentemente num tabloide com um texto pedindo que os gays fossem "enforcados", foi espancado até a morte na sua casa, segundo informou a polícia.

David Kato era um dos mais conhecidos defensores dos direitos dos homossexuais num país onde a homofobia é generalizada e líderes do governo chegaram a propor que os gays fossem executados.

Kato e outros homossexuais já tinham alertado que sua vida estava em perigo e há quatro meses o jornal local Rolling Stone publicou uma lista de gays com a foto de Kato na primeira página.

Ele foi atacado em sua casa na noite de quarta-feira e morto a golpes de martelo na cabeça, disse a porta-voz da polícia Judith Nabakooba.

No entanto, para as autoridades policiais não se tratou de um "crime de ódio". "Parece mais um roubo, já que algumas coisas foram furtadas", disse a porta-voz.

Os ativistas gays discordam, dizendo que Kato foi escolhido por sua defesa aberta pelos direitos dos homossexuais.

"A morte de David é resultado do ódio semeado em Uganda por evangélicos americanos em 2009", declarou Val Kalende, que presidente um dos grupos defensores dos direitos dos gays no país. "O governo e os chamados evangélicos dos Estados Unidos são responsáveis pela morte de David."

Ela estava se referindo às visitas, em março de 2009, de um grupo de evangélicos americanos que realizou assembleias em massa contra os gays.

Os líderes da igreja ugandense que redigiram um projeto de lei contra o homossexualismo, ainda pendente de aprovação, compareceram àquelas reuniões e disseram que elaboraram o projeto juntamente com os evangélicos americanos.

Com a pressão internacional cada vez mais intensa, o presidente Yoweri Museveni disse que o projeto de lei seria descartado, mas isso ainda não ocorreu e ele continua aguardando um debate no Parlamento.

Os americanos envolvidos no caso disseram que não tinham nenhuma intenção de estimular reações como essa.

Comportamento. Para muitos africanos, a homossexualidade é um comportamento imoral importado do Ocidente, e o continente está repleto de leis homofóbicas bastante severas.

Na Nigéria, por exemplo, os gays podem ser mortos por apedrejamento. No Quênia, podem ser condenado a vários anos de prisão.

Em Uganda, porém, a situação parece ainda pior. Grupos conservadores cristãos com uma postura fortemente antigay avançaram muito e hoje desfrutam de muita influência.

A primeira dama do país, cristã convertida, propôs o recenseamento das mulheres virgens.

Ao mesmo tempo, organizações americanas que defendem os direitos dos homossexuais injetaram dinheiro em Uganda para prestar ajuda à pequena e assediada comunidade gay que vive no país. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

PARA LEMBRAR

Em fevereiro de 2010, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, juntou-se à comunidade internacional e condenou o projeto de lei contra homossexuais em Uganda, afirmando que era "odioso". "Nós podemos discordar sobre o casamento gay, mas concordamos que é irracional perseguir gays e lésbicas por serem quem eles são", disse Obama. A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, disse que entrou em contato com o governo de Uganda para expressar sua preocupação referente à lei.

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