Ativista russa é sequestrada e morta na Chechênia

Uma importante ativista russa que investigava sequestros, assassinatos e outros abusos aos direitos humanos na Chechênia foi encontrada morta hoje em uma estrada, com ferimentos à bala na cabeça. Horas antes, quatro homens colocaram Natalya Estemirova dentro de um carro em Grozny, a capital chechena. Testemunhas ouviram quando ela gritou que estava sendo sequestrada, disse Oleg Orlov, presidente do grupo de direitos humanos Memorial, para o qual Estemirova trabalhava. O corpo foi encontrado numa estrada da Ingushetia, que faz fronteira ao oeste com a Chechênia, não muito longe da principal cidade da região, Nazran, disse Orlov. Ela tinha dois ferimentos à queima-roupa em sua cabeça, segundo a porta-voz do Ministério do Interior da Ingushetia, Madina Khadziyeva.

AE-AP, Agencia Estado

15 de julho de 2009 | 19h41

O crime ocorreu pouco antes de uma coletiva de imprensa em Moscou na qual grupos de direitos humanos apresentaram um relatório dizendo que o primeiro-ministro Vladimir Putin e outros altos funcionários russos deveriam ser processados num tribunal internacional por crimes cometidos durante as duas guerras que devastaram a Chechênia nos últimos 15 anos. Não está claro se a morte de Estemirova tem ligação com a divulgação do relatório, preparado por vários dos mais importantes grupos de direitos humanos russos. Alguns dizem que ela não tinha medo. "Ela documentou as maiores violações, execuções em massa e era um contato importante para jornalistas estrangeiros e organizações internacionais", disse Tatyana Lokshina, do Human Rights Watch. "Ela fez coisas que ninguém teve coragem de fazer".

Estemirova, uma mãe solteira de 40 e poucos anos, vinha coletando evidências de abusos dos direitos humanos na volátil província russa da Chechênia desde 1999, quando teve início da segunda guerra pela independência. Lokshina disse que ela retornou recentemente da Chechênia, onde trabalhou com Estemirova em casos "escandalosos" de violações como uma suposta execução pública conduzida por um oficial de segurança.

Vários ativistas com os quais Estemirova trabalhou nos últimos anos foram mortos, incluindo a jornalista investigativa Anna Politkovskaya - outra crítica da guerra russa contra separatistas no Cáucaso - que foi assassinada a tiros em seu apartamento em Moscou em 2006. Estemirova também ajudou Stanislav Markelov, um importante advogado e defensor dos direitos humanos na Chechênia, morto a tiros numa rua de Moscou em janeiro. Markelov foi assassinado quando deixava uma coletiva de imprensa no mesmo local da realizada hoje. Ele havia falado sobre seus esforços para mandar para a cadeia um coronel russo que estrangulou uma menina chechena na cadeia.

Relatório

O relatório de 600 páginas divulgado pelos grupos de direitos humanos nesta quarta-feira parece ser a primeira tentativa abrangente de coletar e analisar casos de atrocidades de todos os lados envolvidos nas duas guerras entre separatistas e as forças russas. As duas guerras foram marcadas por relatos de ataques indiscriminados contra alvos civis e lançamentos de foguetes que destruíram boa parte da capital chechena, execuções sumárias de simpatizantes rebeldes e sequestros de civis de ambos os lados. Pelo menos 484 pessoas foram executadas sem um julgamento durante as guerras e outras 465 foram mortas em massacres ou em postos de controle, conforme o documento.

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