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Marieke Wijntjes/Handout via REUTERS
Marieke Wijntjes/Handout via REUTERS

Ativista saudita de direitos humanos é condenada a quase seis anos de prisão

Loujain al-Hathloul organizava campanhas pelo direito das mulheres sauditas de dirigirem e foi detida em maio de 2018, com outros ativistas; na Etiópia, Kumerra Gemechu, cinegrafista da Reuters, foi preso sem justificativas

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2020 | 16h24

RIAD - A ativista saudita de direitos humanos Loujain al-Hathloul foi condenada a 5 anos e 8 meses de prisão nesta segunda-feira, 28, por um tribunal especializado em casos antiterroristas - informou a imprensa saudita. Na Etiópia, Kumerra Gemechu. cinegrafista da agência de notícias Reuters foi preso e será mantido sob custódia por duas semanas, segundo a família. 

Loujain al-Hathloul foi declarada culpada de "diversas atividades proibidas pela lei antiterrorista", relatou o veículo online Sabq. Ela foi detida em maio de 2018, junto com outros ativistas, por "tentativa de desestabilização do reino", pouco antes de o país suspender a proibição de dirigir para as sauditas, uma reforma pela qual essas mulheres defendiam. 

Segundo o ministro saudita das Relações Exteriores, Faysal bin Farhan al-Saud, Loujain al-Hathloul é acusada de ter estado em contato com Estados "hostis" ao reino e de ter transmitido informações confidenciais. Sua família afirma, porém, que o governo saudita não forneceu qualquer prova tangível para apoiar essas acusações.  

Segundo veículos da imprensa saudita, a pena pode ser suspensa com 2 anos e 10 meses "sob a condição de que não cometa um novo delito nos próximos três anos".

Formada pela universidade canadense de Colúmbia Britânica (UBC), há tempos ela organizava campanhas pelo direito das mulheres sauditas dirigirem e pelo fim da tutela imposta às mulheres pela qual elas ficam à mercê total dos homens.

A militante se encontra em prisão provisória há mais de dois anos, período que foi levado em consideração na sentença pronunciada, informou a mídia saudita, citando a decisão do tribunal. Por este motivo, a ativista pode ser "libertada em dois meses", tuitou sua irmã Lina.

Outra fonte próxima à família e o grupo opositor saudita ALQST, com sede em Londres, disseram que ela será solta antes de março.

Já a diplomacia francesa pediu, nesta segunda, "sua rápida libertação" às autoridades sauditas, declarou um porta-voz adjunto do Ministério das Relações Exteriores da França.

Em 25 de novembro, a família da ativista anunciou que seu caso havia sido transferido por um juiz da corte penal de Riad para um tribunal encarregado de casos de terrorismo. 

Este tribunal penal especializado foi criado em 2008 para julgar os casos de terrorismo. Desde então, contudo, tem servido para julgar presos políticos, conforme denúncia de organizações de defesa dos direitos humanos.  A Arábia Saudita é amplamente criticada no Ocidente por suas ações nesta área.

Frágil estado físico

Loujain al-Hathloul havia iniciado uma greve de fome na prisão, em 26 de outubro, mas a interrompeu duas semanas depois, segundo sua família e a ONG Anistia Internacional. "O estado de ânimo de Loujain está bom, mas sua condição física continua frágil", disse a irmã, Alia al-Hathloul. 

Loujain, uma militante fervorosa pela causa das mulheres sauditas, envolveu-se apenas em atividades pacíficas no reino ultraconservador. A mídia pró-governo descreve essas ativistas como "traidoras" por terem mantido contato com diplomatas e com ONGs estrangeiras. 

A família de Hathloul afirma que, durante a detenção, ela foi vítima de assédio sexual e de tortura. A ativista relatou, de acordo com sua família, que o ex-conselheiro real Saud al-Qahtani ameaçou estuprá-la e matá-la, o que as autoridades negam.

Não é a primeira vez que essa mulher, natural de Al-Qassim, uma região conservadora localizada no centro da Arábia Saudita, é presa.

No final de 2014, ela foi detida por tentar entrar na Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, dirigindo um carro. Foi solta 73 dias depois, após uma campanha internacional.

Cinegrafista da 'Reuters' é preso na Etiópia 

Um cinegrafista da agência de notícias Reuters, Kumerra Gemechu, foi preso na capital da Etiópia, Adis Abeba, na quinta-feira, 24, e será mantido sob custódia por pelo menos duas semanas, disse sua família. Nenhum motivo foi fornecido à família para a prisão, e a polícia não respondeu aos pedidos de comentários da Reuters.

Kumerra, de 38 anos, trabalha para a agência como cinegrafista freelancer há uma década. Em uma breve audiência na sexta-feira, onde nenhum advogado estava presente, um juiz ordenou a detenção de Kumerra por mais 14 dias para dar à polícia tempo para investigar, disse a família.

A Reuters condenou veementemente a detenção de Kumerra. A prisão ocorreu após o espancamento de um fotógrafo da mesma agência, Tiksa Negeri, por dois policiais federais da Etiópia em 16 de dezembro.

“Kumerra faz parte de uma equipe da Reuters que reporta da Etiópia de forma justa, independente e imparcial. O trabalho de Kumerra demonstra seu profissionalismo e imparcialidade, e não temos conhecimento de nenhuma base para sua detenção ”, disse o editor-chefe Stephen J. Adler na declaração.

“Os jornalistas devem ter permissão para relatar as notícias no interesse público sem medo de assédio ou dano, onde quer que estejam. Não vamos descansar até que Kumerra seja libertado ”, disse Adler.

Cerca de 10 policiais federais armados chegaram à casa de Kumerra em Adis Abeba na noite de quinta-feira e o levaram algemado na frente de sua mulher, Hawi Desalegn, e três filhos. Hawi acrescentou que sua filha mais velha, de 10 anos, agarrou-se a ele gritando enquanto ele era levado embora.

A polícia também confiscou o telefone, um computador, pendrives e papéis de Kumerra, segundo a família.

A prisão de Kumerra segue a pressão do governo sobre jornalistas de alguns meios de comunicação internacionais que cobrem o conflito na região de Tigré, no norte da Etiópia, onde as forças do governo lutam contra o antigo partido no poder, a Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF).

O Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ), com sede em Nova York, disse que a detenção de Kumerra foi "o exemplo mais recente de como a liberdade de imprensa está se desgastando rapidamente sob o governo do primeiro-ministro Abiy Ahmed, após uma esperança de reforma efêmera".

Quando o CPJ realizou seu censo anual de jornalistas presos em 1º de dezembro, havia pelo menos sete profissionais sob custódia na Etiópia por seu trabalho, disse o CPJ em um comunicado na segunda-feira. Cinco dessas prisões ocorreram após o início do conflito em Tigré, em 4 de novembro, segundo o CPJ. /AFP, Reuters

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