An Rong Xu/The New York Times
An Rong Xu/The New York Times

Ativistas em Hong Kong têm seu 'Che Guevara'

Mesmo preso, slogan de Edward Leung tem inspirado manifestantes

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2019 | 22h15

Ele está preso há mais de um ano em uma prisão isolada numa ilha, mas Edward Leung, de 28 anos, é a coisa mais próxima que o tumultuado movimento de protesto e sem liderança de Hong Kong tem como inspiração.

Ele cunhou o slogan mais cantado pelos manifestantes e, para a China, o mais subversivo; foi pioneiro na criação de algumas das táticas mais duras do movimento; e deu voz à ideia no centro da luta de Hong Kong, agora em sua 10.ª semana, para evitar que ela se tonasse apenas mais uma cidade chinesa comandada pelo Partido Comunista.

Os protestos foram iniciados em junho contra um projeto que permitiria extradições para a China. E, desde então, foram acompanhados por uma série de outras queixas sobre habitação cara, eleições injustas e brutalidade policial.

Mas na raiz do movimento há uma dramática mudança de identidade desde que o Reino Unido devolveu o território, em 1997. A crescente influência do governo chinês incentivou a grande maioria das pessoas da mesma geração de Leung a rejeitar os laços com a China e exigir uma identidade distinta e totalmente separada.

“Eu sou uma cidadã de Hong Kong, não uma chinesa”, disse Kapo Chen, uma estudante de 20 anos que participou dos protestos no aeroporto da cidade. “É claro que meu sangue é chinês, mas não consigo controlar isso.”

Presa às costas dela estava um pedaço de papel impresso com a maior contribuição de Leung para o movimento de protesto, um slogan agora pintado nas paredes de Hong Kong, e gritado por manifestantes vestidos de preto: “Reconquista de Hong Kong, Revolução dos Nossos Tempos”. Ele escreveu isso em 2016, antes de ser preso em uma briga de rua com a polícia, quando concorria na eleição legislativa de Hong Kong.

Mas interpretações extremamente diferentes do que as palavras de Leung significam – um chamado incendiário para romper com a China ou simplesmente um apelo para defender os valores básicos de Hong Kong – destacaram a existência de um abismo entre os dois lados. O governo da cidade, apoiado por Pequim, lutando contra seus adversários não só pelo controle das ruas, mas pelo significado de Hong Kong como um lugar, uma cultura e uma entidade política.

A governadora de Hong Kong, Carrie Lam, e as autoridades de Pequim denunciaram o slogan de Leung como um chamado traidor para a cidade se separar da China e derrubar a fórmula “um país, dois sistemas” sob a qual Hong Kong retornou ao domínio chinês.

Mas jovens manifestantes e seus defensores notam que a palavra que estão usando para “retomar”, em chinês, significa literalmente “retornar à luz”. Eles insistem que é um apelo para que Hong Kong recupere as liberdades e o sistema imparcial de justiça que eles acreditam terem sido firmemente corroídos.

Chu Hoi-dick, um membro eleito da Assembleia Legislativa que visitou Leung na prisão várias vezes, disse que o ativista jamais foi um militante imprudente como o retrata a máquina de propaganda da China. Mesmo assim, ele o descreve como “o Che Guevara da revolução de Hong Kong”. E acrescentou: “Ele tem essa aura sobre ele e é um ícone para os jovens”.

Chu, também conhecido como Eddie Chu, de 41 anos, também é um dos primeiros defensores do movimento “de devoção aos interesses locais” de Hong Kong, uma causa focada em preservar o senso de identidade da cidade. Ele nunca concordou com as táticas de Leung, que às vezes se transformam em violência, mas compartilha sua opinião de que Hong Kong deve preservar sua identidade diferente, enraizada no estado de direito, liberdades e tradições locais. De sua parte, Leung fez um apelo da prisão para que os manifestantes mantenham a calma e evitem alimentar o ódio.

A dura repressão da China contra os uigures e outras minorias muçulmanas na região ocidental teoricamente autônoma de Xinjiang contribuiu para um sentimento de mau agouro entre muitos jovens em Hong Kong.

 "Está claro que desde que Xi chegou ao poder, a China tem se afastado cada vez mais de todas as ideias de democracia liberal”, disse Alan Tse, um antropólogo da Universidade Chinesa de Hong Kong que estudou o movimento de devoção aos interesses locais. “As pessoas em Hong Kong sabem disso. Eles sabem que muito improvável a chegada de uma democracia genuína, por isso há um grande sentimento de desespero entre os jovens.”

O presidente americano, Donald Trump, avaliou o caso na noite de quarta-feira, escrevendo no Twitter que ele esperava que Xi pudesse resolver a situação pacificamente.

“Conheço muito bem o presidente Xi da China", tuitou Trump. “Ele é um grande líder que tem muito respeito de seu povo. Ele também é um bom homem em um “negócio difícil”. Tenho ZERO dúvidas de que, se o presidente Xi quiser resolver rápida e humanamente o problema de Hong Kong, ele poderá fazê-lo. Um encontro pessoal?”

Uma pesquisa realizada em junho pelo Programa de Opinião Pública da Universidade de Hong Kong constatou que 75% das pessoas de 18 a 29 anos se identificaram como “Hong Konger” em vez de “chinês”, “Hong Konger na China” ou “chinês em Hong Kong”. Esse é um grande aumento em relação aos 23% desse grupo que escolheu Hong Kong como sua identidade durante as Olimpíadas de 2008 e os 45% em 1997.

Residentes mais idosos, muitos dos quais nasceram no continente ou cujos pais nasceram lá, identificam-se um pouco mais com a China. Mas entre aqueles com 30 anos ou mais, 49% ainda se identificaram como “Hong Kongers”.

As autoridades chinesas reconhecem há muito tempo que têm um problema e exigiram que as escolas em Hong Kong apresentem aulas de “educação patriótica” para instilar orgulho pela China e dispersar o que consideram um legado do colonialismo britânico.

Enquanto Pequim e seus aliados em Hong Kong reviveram um firme léxico, lançado durante os protestos da Praça Tiananmen em 1989, denunciando os manifestantes como um “pequeno punhado de vândalos” que devem ser “resolutamente barrados”, jovens ativistas seguiram o conselho de Bruce Lee , a lenda das artes marciais de Hong Kong, para “ser água, meu amigo”, mudando constantemente suas táticas e mensagens.

Um grupo chamado Hong Kong Indigenous, do qual Leung era um dos principais ativistas, começou a assediar os compradores do continente no que chamou de ações de “retomada”. A bandeira da era colonial de Hong Kong tornou-se uma bandeira de resistência no que às vezes se tornava uma desagradável campanha xenofóbica contra os habitantes do continente.

O apoio para declarar que Hong Kong é um país independente continua sendo uma pequena causa marginal. Ela existe em grande parte como um tema recorrente na propaganda comunista, que a usou para atacar os manifestantes como traidores e conter quaisquer simpatias que as pessoas na China continental possam ter pelos protestos.

 "Muitos acham que a independência seria desejável, mas 99% dos moradores de Hong Kong não acreditam que seja viável", disse Lam Cheuk-ting, legislador do Partido Democrata que foi ferido durante um ataque em julho por parte de gângsteres.

“Somos todos chineses aqui, mas nossa cultura, tradições e sistema são totalmente diferentes daqueles do continente”, disse ele. Os jovens manifestantes “simplesmente não confiam no governo central e em seus fantoches em Hong Kong”. “Eles estão muito zangados”, disse ele. Quem carrega a bandeira dessa raiva, ele acrescentou, é Leung.

“Esse movimento não é sobre independência. Trata-se de tornar Hong Kong de novo um lugar livre”, disse Emma Chan, uma manifestante de 20 anos no aeroporto. Segundo ela, "Leung não é um herói, mas inspirou muitos de nós a se interessar por política".

“Muitos pensavam que a política não importa”, disse ela. “Mas ela importa.” / NYT, TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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