Ativistas organizam barreiras contra ações de despejo na Espanha

Manifestantes se organizam para impedir que casas de prejudicados pela crise econômica sejam retomadas por bancos.

Anelise Infante, BBC

30 Setembro 2011 | 08h46

Ativistas na Espanha se organizaram para impedir que a Justiça do país execute ordens de despejo e retire de suas casas pessoas que foram prejudicadas pela crise econômica que o país enfrenta.

O protesto começou de forma espontânea e se transformou em uma campanha organizada chamada Stop Despejos. Os manifestantes geralmente tentam evitar a retomada das casas por bancos.

Assim que ficam sabendo de ordens de desocupação, os ativistas fecham a rua na qual a ordem está prevista para bloquear a entrada dos oficiais de Justiça.

A Polícia da Espanha geralmente precisa cumprir cerca de 200 ordens de despejo por dia no país. Por falta de pagamento, os bancos pedem o imóvel de volta e continuam cobrando as dívidas.

Mas, desde julho estes inadimplentes, na maioria das vezes desempregados e sem recursos, contam com a defesa dos jovens manifestantes, que acamparam no centro das principais cidades do país e que se denominam Indignados.

"Não é uma questão de desobediência civil, mas de questionar a constitucionalidade destes procedimentos. Estamos falando de famílias não representadas legalmente, que desconhecem seus direitos e desamparadas socialmente", disse à BBC Brasil o advogado da campanha, Antonio Palazón, voluntário nas barreiras humanas.

Redes sociais

O sistema de protesto é organizado e coordenado pelas redes sociais. A cada dia é divulgada pela internet e por mensagens nos celulares uma lista com os endereços e horários de intervenção.

Pelas redes, os manifestantes ficam sabendo quando será a chegada dos oficiais de Justiça e da Polícia, divulgam o aviso para ver quem estiver disponível para ajudar na barreira e organizam o bloqueio, que nunca tem menos de cem pessoas.

Os atos de protesto incluem um manual de comportamento com normas básicas como a não violência, não reagir à qualquer ataque policial, nem provocar os executores da ordem judicial.

O manual também divulga normas de organização da ação, que envolve advogados e aponta mediadores para conversar com os policiais e oficiais de Justiça.

"Nosso lema é 'Nem medo, nem vergonha. Exigimos justiça'. O que fazemos é uma resistência pacífica porque acreditamos que podemos conseguir que nenhuma família seja jogada na rua por culpa de avareza de banqueiros", afirmou o porta-voz da Plataforma Afetados pela Hipoteca, Chema Ruiz, participante do protesto.

Renegociação

Com estas manifestações os Indignados já conseguiram cerca de 400 paralisações de execuções de despejo e 74 causas foram renegociadas com os bancos.

Os advogados (todos voluntários) do grupo dizem que o objetivo final é impedir a desocupação, mas também chegar a um acordo com os credores.

Para isso, se oferecem como assessores gratuitos para renegociação de prazos de pagamentos e sugerem como alternativa o sistema de entrega do imóvel e a quitação da dívida.

Atualmente a maioria dos bancos espanhóis executa a ordem de despejo, confiscando o imóvel, mas deixando para o inadimplente a dívida ativa.

A polícia se queixa da atitude dos manifestantes "que não deveriam poder impedir o trabalho de outros", disse à BBC Brasil o presidente do sindicato de policiais, Toni Castejón.

O agente sugere aos tribunais não divulgar dia e hora das ordens de despejo, evitando assim incidentes "por uma questão de sensatez, para que a lei seja cumprida como tem que ser".

A campanha Stop Despejos já começa a ser estender fora do país. Acaba de ser lançado grupo Hipotecados sem Fronteiras com ramificações no Chile, Argentina e Colômbia. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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