AP Photo/Hasan Jamali, File
AP Photo/Hasan Jamali, File

Ativistas presos pela Arábia Saudita estão incomunicáveis há uma semana

Ao menos 7 das 10 pessoas detidas trabalhava na criação de ONG em apoio a vítimas de violência doméstica

O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 12h03

DUBAI, EMIRADOS ÁRABES UNIDOS - Ao menos dez ativistas de direitos das mulheres foram detidos pelo governo da Arábia Saudita e interrogados sem direito a advogados, segundo disseram fontes informadas sobre sua prisão. Ainda de acordo com as fontes, que revelaram as informações à Associated Press sob a condição de anonimato, os detidos tiveram direito a apenas um telefonema, há uma semana, e uma das mulheres detidas foi mantida completamente incomunicável.

Ativistas que falaram à AP também de forma anônima dizem que entre os detidos estão três mulheres conhecidas por seu ativismo - Loujain al-Hathloul, Aziza al-Yousef e Eman al-Najfan - e outras três que fizeram parte do primeiro movimento pelo direito das mulheres a dirigir, em 1990. À época, quase 50 manifestantes foram presas, perderam seus passaportes e empregos. Os ativistas dizem ainda que o advogado Ibrahim al-Mudaimigh também foi detido. Ele representou vários defensores dos direitos humanos e defendeu Loujain quando ela foi presa, no fim de 2014, por ter criticado o governo na internet e tentado dirigir dos Emirados Árabes Unidos até a Arábia Saudita.

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O caso começou no dia 15, quando a polícia prendeu as dez pessoas na capital Riad, e os transferiu para a cidade de Jiddah. Atualmente, sua localização é desconhecida. A mídia saudita afirma que as prisões foram realizadas por forças da Presidência da Segurança do Estado, órgão que responde diretamente ao rei e ao príncipe herdeiro. Segundo ativistas, sete dos detidos estavam envolvidos em esforços para estabelecer uma organização não-governamental que ofereceria apoio e abrigo às vítimas de abuso doméstico. O grupo recentemente submetera ao governo um pedido para estabelecer uma ONG.

As prisões pioraram a situação causada pelas recentes mudanças sociais realizadas pelo príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, que incluem a decisão histórica de derrubar o veto contra mulheres dirigirem - a Arábia Saudita é o único país do mundo com este tipo de proibição. A Anistia Internacional (AI) diz que as promessas de reforma do príncipe "caem em meio à intensificação da repressão e às vozes dissidentes no reino". "Suas promessas mudam muito pouco, se as pessoas que lutaram pelo direito de dirigir agora estão todas presas por terem feito uma campanha pacífica por liberdade e igualdade", disse o diretor da AI no Oriente Médio, Samah Hadid.

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No ano passado, o reino saudita emitiu um decreto informando que mulheres poderiam dirigir a partir do meio deste ano. Depois disso, ativistas dos direitos das mulheres foram contatadas por um tribunal e advertidas a não conceder entrevistas ou falar nas redes sociais. Seguindo a advertência, algumas mulheres deixaram o país e outras pararam de expressar suas opiniões no Twitter. Nas últimas semanas, ativistas disseram que dezenas de defensores dos direitos das mulheres também foram proibidos de viajar para o exterior.

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Várias das mulheres recentemente detidas são vistas como ícones do movimento pelos direitos da mulheres sauditas, que têm pedido o fim das leis que dão aos homens a palavra final sobre se uma mulher pode casar, obter passaporte ou viajar para o exterior. Os protestos são vistos como parte de um movimento maior pelos direitos civis e democráticos no reino. Sua luta, apesar de enfraquecida nos últimos anos pelo medo da prisão, representa um dos últimos espaços de ativismo no reino, onde todos os protestos são ilegais e todas as decisões importantes ficam com o rei Salman e o príncipe herdeiro.

Nos últimos anos, autoridades reprimiram fortemente os defensores dos direitos humanos, incluindo dezenas de membros da Associação Saudita para Direitos Civis e Políticos (HASEM), grupo agora extinto. Seus membros fundadores hoje cumprem longas penas de prisão, condenados sob a uma lei anti-terrorista de 2014. A lei define que atos vagos, como "difamar a reputação do Estado", são atos terroristas.

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O Ministério do Interior não confirmou os nomes das 10 pessoas presas, mas afirmou que estão sendo investigadas por "comunicação com entidades estrangeiras", trabalhar para recrutar pessoas em cargos governamentais importantes e fornecer dinheiro a círculos estrangeiros, com o objetivo de desestabilizar e prejudicar o reino. Meios de comunicação pró-governo divulgaram fotos de algumas das mulheres presas, acusando-as de serem traidoras e pertencerem a uma "célula espiã". O jornal pró-saudita Asharq al-Awsat noticiou que o grupo é investigado por "usar os direitos humanos como um pretexto para violar os sistemas do país".

Os mesmos veículos citaram especialistas na lei saudita, dizendo que os detidos podem enfrentar até 20 anos de prisão e que, apesar de improvável, as acusações de traição podem acarretar até mesmo pena de morte. / AP

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